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Um desafio no jazz


Antes de ficar milionário, detentor de vários ''discos de platina'', o cantor-galã Harry Connick Jr., 37 anos, herdeiro estilístico de Frank Sinatra, era um pianista de jazz de futuro promissor. Nascido e criado em Nova Orleans, desenvolveu seus precoces dotes musicais sob a tutela de Ellis Marsalis - célebre mais em função de sua prole (o trompetista Wynton, o saxofonista Branford, o trombonista Delfeayo e o baterista Jason) do que de seus próprios méritos como pianista e educador.

Connick fechou a boca e sentou-se ao piano, em 2002, para gravar Other hours/ Vol.1 (Marsalis Music 613304), um álbum puramente jazzístico, na moldura de um quarteto com ''Ned'' Goold (sax tenor), baixo e bateria. Quando do lançamento do disco, em 2003, comentei que as improvisações do instrumentista demonstravam ''um grande conhecimento do moderno léxico jazzístico, com referências diretas e indiretas ao pianismo primitivo do Harlem, e deferências especiais às concepções de espaço e de tempo surpreendentes de Thelonious e Ahmad Jamal''.

Estas características são ainda mais nítidas no recém-lançado CD Occasion (MM 613313), no qual Connick interpreta, cara a cara, em duo com o saxofonista Branford Marsalis, sete anos mais velho, 11 temas de sua autoria e dois assinados por seu partner e conterrâneo.

O duo no jazz é um desafio muito perigoso, mesmo entre amigos íntimos. Músicos e ouvintes exigentes terão sempre como parâmetros registros antológicos ,como Undercurrent (Blue Note 38228), de 1962, em que o pianista Bill Evans e o guitarrista Jim Hall trocam idéias melódico-harmônicas refinadas em contrapontos telepáticos, ou em solos nos quais um sustenta o outro, de acordo com as circunstâncias.

Harry Connick Jr. enfrenta, com facilidade, o desafio de manter - num alto nível de técnica sem exibicionismo e de criatividade sem maiores preocupações conceituais - a conversação musical com um dos grandes saxofonistas do jazz nos últimos 20 anos.

Branford toca sax tenor em oito faixas e soprano nas outras cinco: Spot, I like love more, All things, Chanson du vieux carré e Steve Lacy - esta de sua lavra, em homenagem ao célebre saxofonista soprano falecido, em 2004, aos 69 anos.

A faixa-título do CD, gravado em março último, é um belo tema de Branford, de configuração bop, em tempo médio, desenvolvido em apenas três minutos, e antecede Spot - diálogo em que o piano sincopado de Connick (com certos acordes monkianos) e o soprano lépido como um clarinete de seu parceiro criam um ambiente rítmico-sonoro que remete ao Harlem dos anos 30.

Outros pontos altos do disco são Brown world, Virgoid e Good to be home. Nas duas primeiras faixas, o pianista demonstra a perfeita articulação das mãos, mantendo incisivos ''ostinatos'' no registro grave, enquanto a direita cria desenhos melódicos em interação contínua com o saxofonista tenor. Good to be home tem a ver - já no título - com o espírito alegre e relaxado de Nova Orleans, e o tema de Connick é baseado em I got rhythm. Win e I like love more são os momentos mais intimistas e românticos de destaque desse atraente CD.


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[21/JUL/2005]


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