Cariocas e paulistas ainda lamentam o passamento em 2004, aos cinco anos de vida, do Chivas Jazz Festival. O Tim Festival - que mantém o modelo do antigo Free Jazz Festival, mas agora é realizado alternadamente, um ano em São Paulo, outro no Rio - vai beneficiar desta vez os cariocas. Contudo, os jazzófilos dos dois maiores centros culturais do país não podem deixar de marcar na folhinha uma viagem a Ouro Preto para assistir, de 15 a 17 de setembro, a algumas atrações muito especiais da quarta edição do Festival Tudo é Jazz.
Se o título do festival é discutível em termos acadêmicos, está fora de discussão a aliança entre qualidade e audácia que marca a seleção de jazzmen feita pela curadoria de um encontro de músicos e aficionados que não se limita aos sets nos palcos, mas se espalha pelas ruas e por outros cantos da cidade histórica, patrimônio da humanidade, em happenings, workshops (oficinas musicais) e talk-shows (Diálogos do jazz, com a participação de músicos e críticos).
Na área puramente instrumental, o alto nível do Festival de Ouro Preto está assegurado com a apresentação de cinco expressivos conjuntos, de concepções que vão da moderna mainstream a explorações sonoras imprevisíveis.
Esses grupos são o já bem conhecido e refinado quarteto do magnífico baixista Ron Carter (Stephen Scott, piano; Payton Crossley, bateria; Steve Kroon, percussão); um quinteto liderado pelo trombonista Delfeayo Marsalis, presentes os notáveis Donald Harrison (sax alto) e Mulgrew Miller (piano), além do baterista Jason, 28 anos, mais jovem estrela do clã Marsalis; o trio fora de série do pianista sueco Esbjörn Svensson, cada vez mais interativo e hiperativo, desde que surgiu, há dez anos, como uma espécie de réplica escandinava do trio de Keith Jarrett; o trio ainda mais provocante do também pianista Taylor Eigsti, 20 anos, senhor de técnica e imaginação sensacionais; e o grupo de vanguarda Jacob Fred Jazz Odissey, cujo nome não se refere a nenhum dos componentes desse trio nada ortodoxo comandado por Reed Mathis (que toca baixos acústico e elétrico, violoncelo, guitarra de 12 cordas e sitar, aquele tipo de alaúde indiano de sete cordas popularizado por Ravi Shankar).
O mais do que festejado compositor, pianista e arranjador Michel Legrand, 73 anos, vai certamente atrair milhares de fãs a Ouro Preto, tocando e cantando, com o apoio de Sérgio Barroso (baixo) e Kiko Freitas (bateria), mais a participação especial do excelente saxofonista franco-brasileiro Idriss Boudrioua.
A primorosa pianista Eliane Elias - há muito radicada em Nova York - vem com Marc Johnson (baixo), Rubens De La Corte (guitarra) e Satoshi Takeishi (bateria). Como está previsto que Eliane vai também fazer uso de seu segundo instrumento, a voz, que reserva para apresentações e discos mais comerciais, na trilha da bossa nova, sua participação deve ser mais adequada ao entendimento amplo de que ''tudo é jazz''. A MPB está, aliás, incluída na programação do Festival de Ouro Preto, com o astro Ivan Lins e o conjunto Pau-Brasil.