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Luminosas meditações musicais


Há quase 40 anos, o saxofonista tenor Charles Lloyd fascinou a platéia hippie do Festival de Monterey com o desenho rítmico-melódico mágico de Forest flower, composição de sua lavra interpretada à frente de um quarteto integrado pelo pianista Keith Jarrett (então com 21 anos), Jack DeJohnette (bateria) e Cecil McBee (baixo). O LP da Atlantic vendeu, na época, 1 milhão de cópias. Da noite para o dia, o ex-sideman de Chico Hamilton e ''Cannonball'' Adderley ficou famoso, com sua engenhosa adaptação das volutas coltraneanas ao paladar de um público mais jovem e heterodoxo.

Na década de 70 e no início da de 80, Lloyd praticamente retirou-se da cena jazzística. Influenciado pela avó índia, de nome Sally Sunflower (Flor do Sol) Whitecloud (Nuvem Branca), empreendeu uma ''viagem espiritual'' que o levou ao estudo do sufismo (misticismo arábico-persa) e do budismo. Retornou ao chão dos estúdios e dos festivais na segunda metade dos anos 80, ao descobrir e contratar o minúsculo (fisicamente) pianista francês Michel Petrucciani.

Mas foi só em 1989 que Charles Lloyd renasceu mesmo para o jazz, mais sábio e zen do que nunca, ao gravar para o selo ECM o CD Fish out of water (com a seção rítmica nórdica de Bobo Stenson, piano; Palle Danielsson, baixo; Jon Christensen, bateria). Esse disco foi o primeiro de uma série admirável de registros (sempre para o selo de Manfred Eicher) que chega agora ao 11º, com o lançamento de Jumping the creek (ECM 1911), gravado em janeiro de 2004.

Entre Fish out of water e o novo álbum, os pontos culminantes da associação Lloyd-ECM foram The call (de 1993), Voice in the night (1998), The water is wide (1999), Hyperion with Higgins (99), e os álbuns duplos Lift every voice (2000) e Which way is East (2001) - este último título em duo com o grande baterista Billy Higgins, que morreria quatro meses depois das sessões de gravação.

Era difícil supor que Lloyd pudesse superar as sublimes performances de Voice (com mestre Higgins, a guitarra de John Abercrombie e o baixo de Dave Holland) e de The water e Hyperion (os discos de 1999, ao lado do pianista Brad Mehldau, Abercrombie e Larry Grénadier no lugar de Holland).

Mas ele conseguiu chegar ainda mais perto daquela transcendência que diz buscar na vida e na arte para o seu mais recente álbum. Jumping the creek é tão bom ou melhor que os CDs de 1999, que já eram exemplos concretos da definição da música como ''misteriosa forma do tempo'', dada por Jorge Luis Borges em Otro poema de los dones.

Vale registrar que, exatamente em 1999, no Free Jazz Festival, tivemos a oportunidade única de ouvir, ao vivo, o quarteto Lloyd-Higgins-Abercrombie-Marc Johnson (baixo). Talvez influenciado pelo clima brasileiro, o saxofonista esteve bem menos introspectivo que de costume. Mas suas escaladas até as beiras dos precipícios coltraneanos eram seguidas de momentos de tranqüilidade monacal propiciados por suas composições hipnóticas, que o crítico Bill Milkowski qualificou de ''resplendentes'' (cada uma ''a thing of grace and fragile beauty'') ao comentar Hyperion with Higgins (Jazz Times, outubro de 2002).

O novo e indispensável CD de Charles Lloyd contém, além da faixa-título, outras oito composições suas, incluindo Angel Oak revisited (a versão original do tema está em Lift every voice), mais meditações musicais luminosas de Ne me quitte pas, a batida canção de Jacques Brel, e de Come Sunday, de Duke Ellington. Os acólitos da celebração musical presidida por Lloyd são a cada vez mais densa pianista Geri Allen, o baixista-compositor Robert Hurst e o bem mais jovem baterista Eric Harland, descendente estilístico primoroso de Billy Higgins.


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[19/MAI/2005]


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