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Racismo em dois tons musicais


O leitor Sérgio de Souza Tôrres discorda da minha afirmação (na coluna anterior) de que Billie Holiday morreu ''em decorrência da luta pela sobrevivência numa América racista''. E acrescenta: ''A inesquecível cantora foi vítima de sua adição às drogas, seja lá o que tenha causado isso, que foge à nossa capacidade de entender e muito menos explicar. Outros artistas igualmente negros e tão extraordinários e aplaudidos quanto ela, como Charlie Parker, foram vítimas da mesma fatalidade em pleno sucesso. Outros, também negros, não só sobreviveram como imprimiram a marca de seu talento na sociedade americana durante décadas, e seu sucesso repercute até hoje. Para não ser prolixo, fico apenas no exemplo de Louis Armstrong, de menino negro e miserável do Sul a embaixador honorário da cultura americana. Que a América era e continua sendo ainda racista em muitos aspectos todos sabemos. Mas a tragédia pessoal de Lady Day não teve nada a ver com isso''.

Talvez eu não tenha sido feliz ao escrever que Billie Holiday ''poderia ter chegado aos 90 anos, no último dia 7, se sua trágica luta por sobrevivência e reconhecimento numa América racista - onde negros eram enforcados em árvores e ficavam pendurados como estranhos frutos - não a tivesse levado à morte prematura, aos 44 anos, irremediavelmente derrotada pelo álcool e pelas drogas pesadas''.

É claro que a dor da discriminação racial não foi a única causa dos vícios (ou ''anestésicos'') que tão cedo ceifaram a vida da cantora. E é também certo que muitos célebres jazzmen brancos (Chet Baker, Art Pepper, Bill Evans, para citar três dos mais cultuados em vida) foram igualmente junkies.

Contudo, as sensibilidades dos seres humanos são individualíssimas, bem como imprevisíveis suas reações a situações de miséria, humilhação ou opressão. Esse truísmo cai como uma luva quando se comparam a vida e o comportamento de Billie Holiday e Louis Armstrong - dois geniais artistas negros que nasceram e cresceram paupérrimos, em condições bem semelhantes, embora ele em Nova Orleans e ela em Baltimore.

Armstrong morreu em paz, aos 72 anos, merecidamente canonizado como o grande founding father do jazz. Mas é indiscutível que - depois de ter mostrado, em 1928, em West End blues, que ''o jazz possuía capacidade potencial para concorrer com as mais altas ordens então conhecidas da expressão musical'' (Gunther Schuller) - foi aos poucos tornando-se um ''produto'' comercial, assumindo o papel de showman para divertir platéias bem diferentes das dos ''velhos tempos''.

Nos ''velhos tempos'', no Sul dos Estados Unidos, segundo o próprio ''Satchmo'' (entrevista à Harper's, 1967), ''um negro tinha de enfrentar o diabo''. E contava: ''Na estrada, não conseguíamos achar um lugar decente para comer, dormir ou usar o banheiro. Os caras dos postos de gasolina viam um ônibus cheio de músicos negros, e corriam para trancar as portas da sala de espera''.

Billie Holiday não era absolutamente uma santa. Porém, ao contrário de ''Satchmo'', nunca aceitou ser usada para cortejar platéias ''bem comportadas'', segregadas ou mistas. Jamais poderia ter sido uma ''embaixadora honorária da cultura americana''.

A assinatura de Billie está em Strange fruit - canção surgida dos versos sinistros de Abel Meeropol, um professor judeu e comunista do Bronx, que ficou impressionado com uma foto de um negro linchado e pendurado numa árvore, no Deep South dos anos 30.

Billie Holiday cantou Strange fruit, em 1939, numa noitada no Cafe Society, um clube do Village freqüentado por boêmios e artistas esquerdistas. A Columbia recusou-se a gravar a interpretação da vocalista, e o disco maldito acabou lançado pela Commodore.

Como comentou o cantor-pianista Bobby Short, recentemente falecido, a canção de protesto foi, na época, ''um meio de tirar a tragédia do linchamento da imprensa negra e levá-la à consciência branca''.

Eis os versos de Strange fruit (em tradução livre): ''Árvores sulistas têm um estranho fruto,/ Sangue nas folhas e sangue na raiz,/ Corpo negro balançando ao sopro da brisa do Sul,/ Fruto estranho pendente em álamos./ Cena pastoral do Sul galante,/ Os olhos esbugalhados e a boca torcida,/ Perfume de magnólia doce e fresco,/ E o súbito cheiro de carne queimada!/ Eis um fruto para os corvos bicarem,/ Para a chuva arrancar, para o vento sugar,/ para o sol apodrecer, para uma árvore deixar cair,/ Eis uma estranha e amarga colheita''.

Louis Armstrong não teria cantado esses versos perturbadores, em 1939, embora lamentasse num de seus mais pungentes vocais: ''What did I do to be so black and blue?'' (O que fiz eu para ser tão preto e triste?)


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[21/ABR/2005]


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