Maria Schneider e seu jazz que se inspira no balé

[24/FEV/2005]

A concessão do Grammy 2005 (''grandes conjuntos de jazz'') ao álbum Concert in the garden, da compositora e chefe de orquestra Maria Schneider, 44 anos, faz com que o ''Oscar'' da indústria fonográfica passe a ser definitivamente respeitado pelos jazzófilos mais exigentes. Não só pelo conteúdo desse momento supremo da obra da discípula do legendário Gil Evans (1912-1988), mas também pelo fato de que o disco premiado não foi produzido e lançado por nenhuma gravadora conhecida ou indie, mas bancado por admiradores, músicos e amigos de Maria, associados numa empresa aberta, a ArtistShare.

A música de Concert in the garden - como a de outros álbuns já prontos ou em processo de produção na ArtistShare - só pode ser ouvida (fora os samples) em CDs convencionais de tiragem limitada ou em faixas em MP3 adquiridos na internet, nos sites dos próprios artistas ou em /www.artistshare.net/.

O presidente da empresa, Brian Camelio, acha que ajudou a ''fazer história'' com a mais recente coleção de peças de Schneider - um CD de 57m33s, contendo cinco faixas, incluindo a faixa-título. ''Estou quase 100% seguro de que foi a primeira vez na história das gravações que um disco não disponível nas lojas, incluindo as eletrônicas, ganhou um Grammy. Mas estou certo de que se trata do primeiro na história a ser financiado pela base de fãs do artista antes de ficar pronto e de ganhar um Grammy'', afirma Camelio.

Schneider informa que a produção de seu magnífico álbum (10 mil cópias) saiu por uns US$ 80 mil, já recuperados e gerando lucros razoáveis. A criatividade privilegiada da compositora não é só de ordem musical. Ela abandonou um casamento de dez anos com o selo Enja - responsável por Evanescence (1993), Coming up (1995) e Allégresse (2000) - para se dedicar ao contato direto com seus ouvintes, colegas ou estudantes, através da ArtistShare.

Quem quiser encomendar o mais recente CD de Maria vai desembolsar US$ 16,95, mais um pequeno frete. A versão em MP3 sai por US$ 9,95. Por US$ 81,95, pode-se obter a edição da gravação, além de acesso exclusivo a partes dos arranjos de cada uma das peças, clipes sonoros de ensaios e comentários pessoais da autora sobre a concepção e detalhes técnicos da gravação e mixagem das faixas.

A última novidade no site /www.mariaschneider.com/ é que o disco detentor do Grammy foi mixado sem os solos (só com as partes escritas) e disponibilizado para que músicos amadores e profissionais tenham a oportunidade de criar seus próprios solos, como treinamento ou por puro prazer.

A idéia da dupla Schneider-Camelio já atraiu jazzmen da expressão do guitarrista Jim Hall, do pianista Danilo Perez, do saxofonista Chris Potter e do grande trombonista-arranjador Bob Brookmeyer, hoje com 75 anos, sempre citado por Maria como a segunda fonte em que bebeu, depois de Gil Evans.

O CD do trio de Hall (Scott Colley, baixo; Lewis Nash, bateria), gravado no Village Vanguard (The magic meeting) já está disponível no site da ArtistShare, assim como o de Perez (Ben Street, baixo; Adam Cruz, bateria), um registro também ao vivo no Jazz Showcase de Chicago.

O disco premiado de Maria Schneider é um conjunto de três extended works: a faixa-título (11m57s); Three romances, suíte dividida em Choro dançado (9m45s), Pas-de-deux (9m) e Dança ilusória (9m5s); e Buleria, soleá y rumba (18m24s), o ponto culminante do CD.

A tapeçaria de Maria é trançada com delicados fios melódico-harmônicos, mas de textura tonal densa e com inesperados voleios rítmicos. O todo é envolvente como música escrita para balé - paixão confessa da compositora, que já disse serem suas peças influenciadas em grande parte por seu amor pela dança e pelo movimento, refletindo ''suspensão, graça, ascensão e aceleração, acompanhadas pelo ímpeto da apreensão e do júbilo''.

Tudo isso - e muito mais - está nos voicings da orquestra de 17 cadeiras fixas, ocupadas por músicos da ''Primeira Liga'' de Nova York, mais as vocalizações instrumentais etéreas de Luciana Souza, sobretudo em Concert in the garden (solos principais de Ben Monder, guitarra; e Gary Versace, acordeão) e Buleria, soleá y rumba (o sax tenor de Donny McCaslin produz o grande solo do disco). Rich Perry (sax tenor) e Frank Kimbrough (piano) brilham em Choro dançado; Ingrid Jensen (flugelhorn) e Charles Pillow (sax soprano) são os ''bailarinos'' em Pas-de-deux.

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