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A consagração de Don Byron


O CD Ivey-Divey (Blue Note 78215), com o clarinetista Don Byron na proa de um trio tripulado pelos igualmente notáveis Jason Moran (piano) e Jack DeJohnette (bateria), foi eleito o melhor disco de jazz lançado em 2004, na consulta promovida pela Jazz Times (edição janeiro-fevereiro) junto a 45 colaboradores das resenhas da revista, hoje considerada mais influente na comunidade jazzística do que a Down Beat.

Aos 46 anos, Byron consagra-se como o mais técnico, criativo e original jazzman a usar o clarinete (o comum ou o baixo) para pintar quadros musicais expressionistas impactantes, sem perder de vista as principais raízes e personagens do idioma.

O termo Ivey-divey é uma daquelas invenções do vocabulário particular e inexplicável do genial Lester Young (1909-1959), a quem o álbum é dedicado. A remota inspiração é o trio do saxofonista tenor com Nat ''King'' Cole e Buddy Rich, de 1946, que nos legou versões curtas, mas inesquecíveis, de I want to be happy, Somebody loves me, I cover the waterfront e I've found a new baby - temas que o clarinetista e seus pares reverenciam e transfiguram de modo sensacional.

Trata-se de consistente improvisação interativa entre três músicos fora do comum, cuja arte - num outro paralelo com a pintura - pode ser comparada à action-painting abstrata de Jackson Pollock. Ivey-divey é uma obra de action-playing do eclético clarinetista, que já se divertiu com os temas demodés de Raymond Scott e John Kirby (Bug music, gravação da Nonesuch de 1996) e com a música dançante judaica (klezmer).

As 12 faixas do premiado CD de Don Byron (há dois takes de Somebody loves me) incluem, além dos temas ligados a Lester Young, quatro originais do clarinetista e dois célebres ''inícios de conversa'' de Miles Davis: Freddie freeloader e In a silent way.

No cotejo das listas dos 45 críticos ouvidos pela JT, o disco de Byron, gravado em maio do ano passado, obteve 78 pontos. Os outros nove mais votados foram: American song (Savoy), do vocalista Andy Bey (63 pontos); The out-of-the towners (ECM), do trio de Keith Jarrett (55); Eternal (Marsalis Music), do quarteto de Branford Marsalis; Strange liberation (Bluebird), com o quarteto de Dave Douglas acrescido do guitarrista Bill Frisell (47); The life of a song (Telarc), do trio da pianista Geri Allen com Dave Holland e DeJohnette (47); A gathering of spirits (Telarc), uma reunião de cúpula de Joe Lovano, Michael Brecker e Dave Liebman, gigantes do saxofone contemporâneo (45); The great divide (Koch), do lendário sax tenor chicagoano Von Freeman, em plena forma aos 81 anos (45); Unspeakable (Nonesuch), de Bill Frisell (43); e Concert in the garden (ArtistShare), com a compositora-arranjadora Maria Schneider à frente de sua big band (41 pontos).

Dos dez álbuns escolhidos pelos 45 críticos como os melhores de 2004, apenas três concorrem ao Grammy - o ''Oscar'' da indústria fonográfica, com festa de premiação marcada para 13 de fevereiro. São eles: The out-of-towners e Eternal, na categoria de pequenos conjuntos de jazz; Concert in the garden, na de big bands.

Ou seja, os últimos CDs de Keith Jarrett e Branford Marsalis foram tão festejados pela crítica mais exigente como pelos experts do Grammy, que não eram - até bem recentemente - levados a sério pelos jazzófilos.

Curiosamente, o sofisticado Concert in the garden, de Maria Schneider - na minha modesta opinião, e na de críticos como Larry Appelbaum, James Hale e Nate Chinen, uma obra simplesmente fascinante -, mereceu uma atenção bem maior por parte dos responsáveis pelas indicações para o Grammy do que dos críticos convocados pela JT.

A obra-prima de Maria Schneider, a propósito, não pode ser comprada nem em lojas virtuais, mas somente por via direta, em seu site (www.mariaschneider.com). Quem acessá-lo, clique em ''radio'', e poderá ouvir a extraordinária suíte Buleria, soleá y rumba, com comentários da autora sobre sua concepção. A brasileira Luciana Souza participa da trama melódico-harmônica com a voz (sem palavras), como se fosse um instrumento, ao lado de músicos da estatura de Donny McCaslin (sax tenor) e Greg Gisbert (flugelhorn), os principais solistas da peça.

Rich Perry (sax tenor) e Frank Kimbrough têm os principais solos em Choro dançado; Ingrid Jensen (flugel) e Charles Pillow (sax soprano) brilham em Pas de deux.

Para Ben Ratliff, crítico do New York Times, ''a música de Concert in the garden atinge um novo nível de beleza e complexidade''.


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[27/JAN/2005]


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