Quando o pianista Brad Mehldau nasceu, em 1970, o acordeonista Art Van Damme já tinha 50 anos e o seu período áureo de artista da Columbia (1952-65) já terminara. O bebop suave de seu quinteto, de concepção e estrutura idênticas às do conjunto de George Shearing, ainda era apreciado na Europa, onde Van Damme gravou, para o selo alemão MPS, 16 LPs entre 1966 e 1970.
A idade média dos seis líderes dos grupos de jazz que tocam de amanhã a domingo no palco Club do Tim Festival, no Jockey Club de São Paulo, é de quase 49 anos. O número é significativo por refletir muito bem a idéia do curador Zuza Homem de Mello de produzir um sample expressivo de meio século de jazz.
O programa revive os tempos em que Van Damme (84 anos) estava tão em moda como o topete e a brilhantina; realça a música complexa e refinada do trio do jovem Mehldau e da big band do maduro baixista-compositor Dave Holland (58); passa pelo world jazz cigano do guitarrista Biréli Lagrène (38); pelo hard bop de forte colorido latino do vigoroso saxofonista David Sánchez (35); e inclui o mestre dos saxes tenor e soprano Branford Marsalis (44), um dos ícones dos young lions dos anos 80.
Brad Mehldau, a grande atração da noite de amanhã no Club do Tim Festival, foi eleito pelos leitores da Down Beat o pianista do ano de 1999. Três anos antes já impressionava os críticos de jazz por sua técnica e inventividade espantosas, como sideman de Lee Konitz (Alone together, Blue Note 57150), e no primeiro volume de The art of the trio (Warner 46260), à frente do trio que mantém até hoje (Jorge Rossy, bateria; Larry Grénadier, baixo).
A set list de Mehldau no palco do Club deve incluir temas de seu último CD, Anything goes (Warner 48608) - uma série de profundas reflexões sobre baladas e standards, como a faixa-título (Cole Porter), Get Happy (Arlen), Smile (Chaplin) e The nearness of you (Carmichael).
A arte do trio no jazz foi cultivada no mais alto nível de excelência musical por Bill Evans, nos anos 60 e 70. Keith Jarrett foi (e ainda é) o excepcional sucessor de Evans, mas tem agora de dividir o pódio da modalidade com o quase 30 anos mais jovem Mehldau.
Na segunda noite do Tim Festival, Branford Marsalis e David Sánchez comandam, respectivamente, um quarteto e um quinteto, com destaque para o irmão de Wynton, que é um dos mais completos e criativos saxofonistas surgidos nos últimos 20 anos, do ramo coltraneano menos ''difícil''.
Branford atingiu aquela maturidade em que não precisa provar mais nada. Basta soprar o instrumento e deixar que fluam a imaginação e a memória. E é esse ''estado de graça'' - recentemente registrado no CD Eternal (Marsalis Music 613309) - que Branford deve transmitir na liderança de um quarteto com os estelares Joey Calderazzo (piano), Jeff ''Tain'' Watts (bateria) e Eric Revis (baixo).
O sax tenor David Sánchez é porto-riquenho. Emigrou para os Estados Unidos em 1988, estudou na Rutgers University (Nova Jersey) e passou a se exibir em clubes de Nova York. Foi indicado por Claudio Roditi para se juntar à United Nations Orchestra, de Dizzy Gillespie, em 1991. Desde então, desenvolveu um estilo vigoroso - um mix de Dexter Gordon, Sonny Rollins e John Coltrane - com tempero temático e swing caribenhos. Em seu último álbum, Coral (Columbia 90313), improvisa com seu quinteto, inserido na Orquestra Filarmônica de Praga, sobre peças de Villa-Lobos (a faixa-título), Ginestera (Panambi e Vidala) e Tom Jobim (Eu sei que vou te amar e Matita Perê).
David Sánchez vem com Edsel Gomez (piano), Adam Cruz (bateria), Pernell Saturnino (percussão) e Hans Glawischnig (baixo). Os três primeiros estão no CD Coral, cuja temática deve ser explorada com uma redução dos arranjos orquestrais de Carlos Franzetti.
No encerramento do Tim Festival, domingo, o cardápio jazzístico é bem variado: a orquestra magistral de Dave Holland, extensão do vitorioso quinteto em que brilham Chris Potter (saxes), Robin Eubanks (trombone) e Steve Nelson (vibrafone); o revival da música imortal de Django Reinhardt por conta do quarteto (com o sax tenor de Franck Wolf) do fenomenal guitarrista cigano Biréi Lagrène; e o quinteto do velho acordeonista Art Van Dammne, disposto a provar que ainda é mestre do instrumento por ele introduzido no jazz, e que ainda está no prazo de validade o refrão ''recordar é viver''.