Descendente direto do Free Jazz Festival, o Tim Festival realiza-se este ano somente em São Paulo, de 5 a 7 de novembro, no Jockey Club. Mas as principais atrações dedicadas aos jazzófilos e simpatizantes - no palco Club - são tão relevantes e especiais que a ponte aérea ou a Via Dutra não podem deixar de estar nas cogitações dos cariocas
habitués dos festivais que, nos últimos anos, lotaram o Museu de Arte Moderna (no Free, e depois no Tim) e a Marina da Glória (no Chivas).
Num único e prolongado fim de semana, estarão em São Paulo o trio do pianista Brad Mehldau, de qualidade técnica e conteúdo musical comparáveis ao trio do genial Keith Jarrett; a big band do baixista-compositor Dave Holland, uma das maiores expressões do jazz contemporâneo; o quarteto neo-bop do brilhante saxofonista Branford Marsalis; e o quinteto de David Sánchez, vigoroso sax tenor, nascido há 35 anos em Porto Rico, mas há muito integrante da ''primeira liga'' de Nova York.
Como hors d'oeuvre e sorbet, o cardápio jazzístico do festival oferece o quinteto do octogenário acordeonista Art Van Damme, o primeiro a tocar bebop num instrumento tido como cafona até recentemente, e o quarteto ''neo-djangológico'' do extraordinário guitarrista cigano Biréli Lagrène que, aos 20 anos (hoje está com 37) já media forças com gente do porte de John McLaughlin, Larry Coryell e Al Di Meola.
A big band de Dave Holland é, como se sabe, uma ampliação do celebrado quinteto que cariocas e paulistas ouviram ao vivo no Chivas Festival de 2001, com Chris Potter (saxes), Steve Nelson (vibrafone e marimba), Robin Eubanks (trombone) e Billy Kilson (bateria). Com exceção de Kilson (substituído por Nate Smith), esses músicos continuam como o núcleo da orquestra. A formação que toca em São Paulo é quase a mesma que gravou What goes around (ECM 1777), considerado um dos cinco melhores discos lançados no período 02/03 pelos leitores da Down beat. O irmão de Robin Eubanks, Duane, e Alex Spiagin permanecem na bancada dos trompetistas, assim como Mark Gross (sax alto) na seção de palhetas. Nas notas de What goes around, o próprio Holland sintetiza o conceito plenamente realizado de sua orquestra: ''Para mim, a essência de uma big band é a celebração do espírito coletivo por um grupo de personalidades altamente individuais''.
O trio de Brad Mehldau (Larry Grénadier, baixo; Jorge Rossy, bateria), formado há quase 10 anos, gravou o primeiro CD da série The art of the trio (Warner 46260) em 1996. O pianista conseguiu desenvolver um conjunto com DNA próprio, depois de decifrar os códigos genéticos da música também hiperativa concebida pelos trios de Bill Evans (décadas de 60 e 70) e Jarrett (a partir de 1983). A consagração de Mehldau e de seu trio ocorreu no início de 2000, com a gravação ao vivo, no Village Vanguard, do volume 4 da série Back at the Vanguard (Warner 47463). Aos 34 anos, Brad Mehldau é uma espécie de Bill Evans pós-moderno ou de um Keith Jarrett cartesiano (''penso, logo, toco'', e não ''toco, logo, penso'', como poderia dizer Jarrett).
Branford Marsalis, 44 anos, um ano mais moço que o irmão Wynton, é um dos mais completos saxofonistas (tenor e soprano) dos últimos 20 anos - o elo mais forte da cadeia evolutiva pós-coltraneana, ligando a geração de Michael Brecker e Joe Lovano à de James Carter e Joshua Redman. Branford vem ao Tim Festival no comando de um quarteto fora de série, com Joey Calderazzo (piano), Eric Revis (baixo) e Jeff ''Tain'' Watts (bateria).
O quarteto de Marsalis deve apresentar o repertório do CD Eternal (Marsalis Music 613309), lançado em setembro. Trata-se de um álbum baseado em baladas que tem merecido da crítica especializada adjetivos como ''primoroso'' e ''profundo''. O disco tem sete faixas, das quais quatro de autoria dos próprios instrumentistas: a faixa-título (Branford), Reika's loss (Watts), Muldoon (Revis) e The lonely swan (Calderazzo). Marsalis toca sax tenor na primeira e soprano nas outras três.
No ano passado, os produtores do Tim Festival levaram ao palco do Club a supersônica orquestra de 15 membros de McCoy Tyner, grão-mestre do piano moderno, e o quinteto revivalista dos Jazz Messengers de Art Blakey, centrado em Cedar Walton, Curtis Fuller e Donald Harrison. Além do refinado e pouco conhecido noneto do saxofonista Walt Weiskopf.