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Pianista autodidata que fez escola

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Pianista autodidata que fez escola


Nas décadas de 50 e 60, George Shearing era quase tão famoso como Nat ''King'' Cole. Cego de nascença, o pianista inglês já tinha decorado e recriado solos inteiros de Fats Waller, Teddy Wilson e Art Tatum, quando emigrou para os Estados Unidos, em 1947. Dois anos depois, gravou o disco September in the rain à frente de um quinteto que incluía a vibrafonista Margie Hyams. O single vendeu 900 mil cópias - um número astronômico para a época. Em 1952, Shearing compôs Lullaby of Birdland, que se tornaria um dos temas mais tocados e cantados por músicos de jazz e intérpretes do American songbook.

Apesar de praticamente ignorado pelas novas gerações de jazzófilos, George Shearing continua na ativa e comemorou semana passada 85 anos, com dois CDs e uma autobiografia na praça.

O livro de 272 páginas, escrito com a colaboração de Alyn Shipton, intitula-se - é claro - Lullaby of Birdland. Está nas livrarias norte-americanas e européias há mais de dois meses, e foi lançado juntamente com o CD duplo Lullabies of Birdland (Concord 2211), que contém 25 faixas selecionadas de gravações realizadas entre 1949 e 2000.

Shearing não é apenas um pianista autodidata fora de série - como foi o extraordinário Erroll Garner, que nunca leu uma partitura. O músico anglo-americano aprendeu logo a decifrar em Braille as notas, claves e compassos numa escola especial para cegos. E ele diz, na autobiografia, que ter nascido cego teve certas ''vantagens'', entre as quais ''um alto grau de concentração'' e a facilidade de repetir imediatamente no piano, desde garoto, qualquer música que ouvia.

Conheci George Shearing no Rio, depois de um concerto no Teatro João Caetano, num jantar em que éramos seis, no antigo Hippopotamus. A elegância, o bom humor e a afabilidade de sua música são reflexos de sua personalidade. Como sabia que estávamos em Ipanema, achou que o som da queda d'água artificial descontínua do restaurante era o vai-e-vem das ondas do mar. Explicamos - um pouco sem jeito - que a casa era em Ipanema, mas não na beira do mar. Shearing riu muito da pequena confusão. Aliás, estava sempre sorrindo, como numa ocasião em que um outro cego, num cruzamento no centro de Londres, pediu-lhe ajuda para atravessar a rua. George não se fez de rogado. Sabia de cor (e de ouvido) o caminho e os sinais da região.

O quinteto original do pianista tinha - além de Marjorie Hyams - Chuck Wayne (guitarra), John Levy (baixo) e Denzil Best (bateria). A arquitetura do grupo manteve-se até meados dos anos 60, e contou, no decorrer do tempo, com a participação de outros músicos do prestígio de Eddie Costa (vibrafone), Dick Garcia (guitarra) e George Duvivier (baixo).

O próprio Shearing assim explicou a concepção dos quintetos que liderava, exibindo técnica impecável, fluência melódica e harmonias então avançadas, da derivação cool do bebop:

- Quando o quinteto surgiu em 1949, trouxe um som muito plácido e pacífico, bem no fim de uma era desvairada e frenética, conhecida como bebop . Eu usava o vibrafone para expor a melodia lá no topo, a guitarra para fazer o mesmo, uma oitava abaixo, e tocava essas duas melodias numa oitava à parte, com três ou quatro notas inseridas, fazendo um bloco sonoro cheio que, se fosse transcrito para saxofones, ficaria como o som de Glenn Miller.

Shearing é bastante sincero para reconhecer que música também é negócio, embora o seu principal negócio tenha sido sempre exibir seu toque perfeito, improvisando sobre temas derramados como Blue moon, sobre as harmonias bop de Hallucinations (Bud Powell), acompanhando cantores ou parafraseando Chopin.

O CD mais recente do pianista, Like fine wine (Mack Avenue 1015), é acessível a todos os ouvidos. Apresenta o velho Shearing, especialista em harmonias elegantes, vôos melódicos inventivos, embora nunca muito longe do ninho confortável da melodia-base. Ao lado dos fiéis Neil Swainson (baixo) e Reg Schager (guitarra), ele desenvolve 14 temas, incluindo um Giant steps em ritmo de bossa nova, Tricotism (Oscar Pettiford), Con alma (Dizzy Gillespie) e Moose the mooche (Charlie Parker).

Os últimos 20 anos foram muito produtivos para o pianista cego. Só para a etiqueta Concord gravou 18 discos no período 1980-89, com destaque para Breaking out (1987), com Ray Brown (baixo) e Marvin Smitty (bateria). Para a Telarc, foram 15 CDs, e um dos mais atraentes é Back to Birdland, gravado ao vivo no novo Birdland, em 2000. O quinteto com Don Thompson (vibrafone), Dennis Mackrel (bateria), Swainson e Schwager apresenta, muito bem lapidadas, gemas como Joy Spring (Clifford Brown), Donna Lee (Parker) e Subconscious Lee (Lee Konitz). E - é claro - Lullaby of Birdland.


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[19/AGO/2004]


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