O lendário e atualíssimo baterista Roy Haynes, que completou 79 anos em março com o aspecto físico, a energia e a criatividade de um grande músico 20 anos mais moço, foi eleito para o
Hall of Fame pelos críticos do mundo todo, no referendo anual da revista
Down Beat. Ou seja, entrou em vida para o Olimpo dos deuses do jazz, ao mesmo tempo em que foi também escolhido como o melhor baterista do ano.
A Down Beat - que está comemorando 70 anos - criou o Hall of Fame em 1952, como uma categoria a mais na eleição dos melhores do ano, então destinada apenas aos leitores da revista. É claro que o primeiro jazzman a ser canonizado pelo público foi Louis Armstrong. Nos anos seguintes, tiveram acesso ao Hall of Fame Stan Kenton, Charlie Parker, Duke Ellington, Count Basie, Lester Young e Dizzy Gillespie.
Os críticos só foram convidados a selecionar músicos (mortos ou vivos) para o Hall em 1961. Naquele ano, os experts premiaram Coleman Hawkins (1904-1969), enquanto os leitores preferiram Billie Holiday (1915-1959). Dos 48 jazzmen admitidos nesse Olimpo pela crítica especializada (houve anos em que dois ou três músicos empataram no primeiro lugar), apenas 12 estavam ou estão vivos: Hawkins, Earl Hines (1965), Roy Eldridge (1971), Cecil Taylor (1975), Benny Carter (1977), Max Roach (1980), Sun Ra (1984), Gil Evans (1986), Artie Shaw (1996), Elvin Jones (1998), Wayne Shorter (2003) e, agora, Roy Haynes.
Deve-se ainda destacar que, entre os instrumentistas formalmente coroados pelos críticos nos referendos anuais da DB, Haynes é o sexto baterista. Os outros cinco foram, além de Roach e Elvin Jones, Kenny Clarke, Eddie Blackwell e Tony Williams. Art Blakey entrou para o Hall em 1981, mas pelos votos dos leitores. Como seria de se esperar, as portas do seletíssimo santuário abriram-se mais vezes para saxofonistas, pianistas e trompetistas.
Roy Haynes já era um ótimo time keeper aos 20 anos, quando foi contratado por Lester Young. Seu nome passou a correr de boca em boca, pela Rua 52, como um futuro Max Roach (dois anos mais velho). Suas baquetas podem ser ouvidas em registros históricos do bebop, como o Bouncing with Bud, de agosto de 1949, como integrante do grupo de Bud Powell-Fats Navarro, ao lado de um garoto de 19 anos chamado Sonny Rollins.
Haynes tem se mantido na crista da onda há quase 60 anos. É um dos mais completos bateristas de todos os tempos, embora nunca tenha tido a popularidade de um Roach ou de um Blakey. Em entrevista concedida ao saxofonista Joshua Redman, na última edição da DB, Haynes cita ''Papa'' Jo Jones (o inesquecível baterista da orquestra de Basie), Shadow Wilson, Roach e Blakey como os colegas que mais ouviu em seus anos de formação.
A admissão do veteraníssimo baterista no Hall of Fame tem muito a ver, também, com a sua obra recente - sobretudo os CDs The Roy Haynes Trio featuring Danilo Perez & John Patitucci (Verve 543534), editado em 2000, e Fountain of youth (Dreyfus 36663), gravado ao vivo, no Birdland, Nova York, em dezembro de 2002, e lançado no início deste ano. Tanto no álbum em trio como nesse último disco, em que o quase octogenário baterista cerca-se de músicos bem mais jovens, ele está sempre no comando, cada vez mais enérgico e inventivo, indicando com seus tambores e pratos surpreendentes vias melódicas e climas harmônicos.
Marcus Strickland (saxes tenor e soprano, clarinete baixo), Martin Bejerano (piano) e John Sullivan (baixo) interagem não apenas com um mestre da arte percussiva, mas com um grande músico. O quarteto revisita, à moda do chefe, composições de Thelonious Monk (Green chimneys, Trinkle tinkle e Ask me now), Butch & Butch (Oliver Nelson), Question & answer (Pat Metheny), Greensleeves e outros temas, entre os quais um standard de Irving Berlin (Remember).
Para saudar a entrada no Hall, nada melhor do que uma derramada frase do crítico Don Ouelette, ao comentar o último CD do baterista: ''Como Fountain of youth captura de modo tão exuberante, Roy Haynes é uma das sete maravilhas do jazz moderno''.