No início da década de 40, um jovem editor de filmes de Hollywood, Norman Granz, passou a promover jam sessions em clubes de Los Angeles, com músicos já célebres, como Lester Young, ou emergentes, como o então apenas pianista Nat King Cole. Granz era também um ativista liberal, numa época em que o desrespeito aos direitos mais simples dos negros e minorias étnicas nos Estados Unidos era algo tão usual como mascar chiclete.
Em 1944, o futuro dono das gravadoras Clef e Norgran - depois fundidas no selo Verve - promoveu uma jam session no Philarmonic Auditorium de Los Angeles, a fim de angariar fundos para a defesa de vários chicanos (imigrantes mexicanos) presos arbitrariamente, numa manifestação, pela polícia racista da cidade. O concerto foi realizado (e gravado) na tarde de um domingo, 2 de julho.
Não se pode deixar de lembrar, 60 anos depois, esse marco histórico no desenvolvimento do jazz, naquela fase de transição do swing para o bebop. O concerto-jam session foi o início da série Jazz at the Philarmonic. Granz contratava músicos de renome que, em diferentes salas de concerto dos Estados Unidos (e mais tarde na Europa), atuavam nas altas madrugadas, pelos pequenos clubes em que trabalhavam. Os jazzmen escolhiam os temas sobre os quais improvisariam, em solos completamente ad lib, sustentados por riffs típicos das bandas de swing, sobretudo nos crescendos finais, geralmente em ritmo dobrado.
O primeiro concerto da série JATP não foi um sucesso financeiro, apesar de reunir, entre outros, o saxofonista Illinois Jacquet (já famoso pelo seu sopro exuberante, exibicionista, fundado no rhythm & blues), King Cole, o trombonista J.J. Johnson (na flor de seus 20 anos), o ''mágico da guitarra'' Les Paul e o tenorista Jack McVea. O disco de 78 r.p.m. virou um hit nas juke boxes, muito comuns nos bares da época.
O primeiro LP do concerto de 1944 vendeu mais de 150 mil cópias, proclamando o advento das genuínas gravações ao vivo (com anúncios, aplausos etc) como uma ''forma legítima'' de registro fonográfico, conforme destacou Roy Carr no livro A century of jazz (Da Capo, 1997).
The first concert foi reeditado em CD (Verve 521646) em 1994. Os temas da histórica jam session são basicamente sete: Lester leaps in, Tea for two, Blues, Body and soul, I've found a new baby, Rosetta e Bugle call rag. Os takes dos antigos LPs de 10 polegadas saíram em volumes diferentes, sempre com aquelas capas desenhadas pelo artista plástico que mais captou o espírito do jazz: David Stone Martin.
O Body and soul de mais de 10 minutos (volume 5 na série original) é emblemático. McVea expõe o tema, King Cole mostra sua técnica elegante e seu humor sutil num solo irretocável, a guitarra ''falante'' de Les Paul provoca exclamações de puro gozo dos ouvintes e Jacquet esquenta ainda mais a temperatura ambiente com seus guinchos no topo do registro agudo de seu sax tenor.
Blues, em tempo rápido, a partir de uma introdução boogie-woogie de Cole, atinge um clímax vertiginoso, com Jacquet ''assoviando'' no sax, como fariam, 20 anos depois - numa estética assumidamente expressionista e totalmente free -, John Coltrane, Archie Shepp e Albert Ayler. King Cole e Les Paul promovem um diálogo inesquecível, cada um repetindo ou glosando as tiradas melódico-harmônicas do outro.
Nas notas de Bob Blumenthal constantes da reedição em CD de The first concert, J.J. Johnson comenta as críticas de que os concertos do JATP nada mais eram do que shows com muita pirotecnia, destinados a sacudir as platéias, mas de conteúdo musical duvidoso: ''Para eles (os críticos), o JATP era mais circo do que música. Mas, nos melhores momentos, o JATP era apenas música boa, feita por caras que se inspiravam ao tocar juntos, e que não tinham necessariamente trabalhado juntos antes. Em muitos concertos, a química era a melhor possível. Mas não se pode negar que havia também aquele clima de duelo - um músico querendo degolar o outro.''
Granz dizia que seu objetivo à frente das trupes do JATP, formadas nos Estados Unidos entre 1944 e 1957, era ''apresentar o melhor jazz possível às maiores audiências possíveis''. A meta foi atingida, apesar de exibicionismos como os de Al Killian, que atingia no trompete agudos considerados impossíveis.
Jazzmen de todos os estilos exibiam, ao vivo, sem restrições de tempo, suas qualidades de solistas. Num mesmo palco, improvisavam Dizzy Gillespie, Coleman Hawkins, Charlie Parker, Lester Young, Flip Philips e Buck Clayton. Não se deve esquecer que alguns dos melhores solos de Parker estão em registros do JATP, de 1946, como o de Lady be good - aquele que seria, para sempre, o Parker's mood.