Com a morte de Elvin Jones, aos 76 anos, na última semana, desfez-se, no tempo, a trindade suprema dos mais influentes bateristas do jazz moderno. Os sobreviventes são os ainda ativos Max Roach, 80 anos,
founding father do bebop, ao lado de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, e Roy Haynes, 78 anos, cujo mais recente CD tem como título a fonte da juventude (
Fountain of youth) que ele parece ter descoberto.
Elvin Jones era o irmão mais moço de dois outros músicos notáveis: Thad (1923-1986), trompetista, arranjador e líder da excelente big band que se apresentava, todas as segundas-feiras, de 1965 a 1979, na ''catedral'' do jazz de Nova York, o Village Vanguard; e o pianista Hank, cujo 80º aniversário foi comemorado, ano passado, numa jam session no Blue Note, da qual participou ativamente, cercado de pianistas mais ''jovens'', como Kenny Barron, Cedar Walton, Monty Alexander e Benny Green.
Se Max Roach foi o primeiro músico a transformar, radicalmente, em propulsiva a função pulsátil da bateria, integrando-a ao conjunto de jazz como um instrumento rítmico-melódico, captor das ''mensagens'' vindas da África, Elvin foi o mestre da percussão climática, intensa, envolvente e assimétrica.
Sua função no revolucionário quarteto de John Coltrane não era apenas de propulsão rítmica. Os vôos do sax de Trane não seriam os mesmos não fossem os relampejos dos tambores e as cintilações dos címbalos de Elvin. Sem as marcantes colorações do baterista, o quarteto seria como uma marinha de Turner sem aquelas densas e surpreendentes nuvens carregadas de luzes e sombras.
O falecido Leonard Feather assim falou da importância de Elvin Jones na história do jazz, a partir da associação com Coltrane (1960-66): ''Sua principal conquista foi a criação do que se poderia chamar de um círculo de som, um continuum no qual nenhum beat do compasso era necessariamente indicado por qualquer marcação específica, ainda que o clima global se tornasse uma parte tremendamente dinâmica e ritmicamente importante do conjunto''.
No obituário publicado na edição do dia 19 do New York Times, Peter Keepnews comentou com propriedade: ''Nenhuma das imagens cunhadas pelos críticos para descrever seu modo de tocar - vulcão, furacão, máquina de moto-contínuo - fazia inteira justiça à potência de seu ataque, à complexidade de suas idéias e à originalidade de seu approach''.
Elvin Jones não chegou a ser rotulado como baterista free, como ocorreu com Sunny Murray, Ed Blackwell, Rashied Ali e Jack DeJohnette - todos eles diretamente influenciados pela arte do mais moço dos irmãos Jones.
Mas foi um mestre da livre improvisação, seja como uma das turbinas do quarteto de Coltrane (a outra era o pianista McCoy Tyner), seja como líder dos grupos que, nas duas últimas décadas, batizou de Jazz Machine.
Nessa última fase de sua gloriosa carreira, Elvin funcionou como uma espécie de Art Blakey com relação a seus Jazz Messengers. Ajudou a revelar os young lions dos anos 90 que - na via aberta por Wynton Marsalis - propunham uma releitura do bebop como ponto de equilíbrio entre a fusão comercial do jazz com o rock e derivados e o free jazz de corpo europeu, despojado da alma negra.
Nas apresentações e (poucas) gravações da Jazz Machine cresceram e se projetaram músicos hoje de sólida reputação, como os saxofonistas Joshua Redman, Javon Jackson, Mark Shim, Ravi Coltrane, o trompetista Nicholas Payton, o trombonista Delfeayo Marsalis e o pianista Anthony Wonsey.
A obra fundamental de Elvin Jones é inseparável da de Coltrane, como atestam as obras-primas do quarteto que (com o de Ornette Coleman) mudou o curso do jazz, há mais de 40 anos: My favorite things (Atlantic), de 1960; A love supreme (Impulse), de 1964; e The complete 1961 Village Vanguard recordings (Impulse).
Dos CDs do baterista-líder da Jazz Machine, nos últimos 15 anos, alguns foram editados só no Japão, onde ele tocava com freqüência, e viveu dois anos com sua mulher, Keiko. Mas Young blood (abril de 1992) e It don't mean a thing (outubro de 1993), ambos gravados pela Enja, são representativos, e estão disponíveis nas lojas e sites de discos importados.