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Tenorinho, afinal, homenageado


Osvaldinho de Oliveira Castro, baterista amador da maior competência, habitué do Beco das Garrafas na década de 60, vive hoje em Friburgo, mas continua um jazzófilo entusiasmado. No recente Chivas Festival, na Marina da Glória, presentou o ''canonizado'' saxofonista Bud Shank com uma foto, tirada em fevereiro de 1963, no Festival de Jazz de Mar del Plata. Shank, então com 36 anos, aparece em primeiro plano, tocando flauta. A seu lado, o trombonista Edson Machado e, bem ao fundo, o baterista Osvaldinho. Em terceiro plano, ao piano, de óculos escuros, Tenório Júnior, o Tenorinho, 22 anos na época, acompanha o solo de Bud Shank.

Em 18 de março de 1976, quando estava em Buenos Aires, em excursão profissional com Vinicius de Moraes e Toquinho, Tenorinho saiu do Hotel Normandie para ir à farmácia e foi detido por agentes da ditadura militar argentina. O pianista não era ativista político, nem era ''fichado'' no SNI ou em qualquer outro órgão de repressão da ditadura militar brasileira - naqueles tempos, os serviços secretos das Forças Armadas dos dois países trocavam informações e presos políticos.

Uma semana depois, a chefia da Armada argentina comunicava à Embaixada do Brasil em Buenos Aires: ''Lamentamos informar (...) o falecimento do cidadão brasileiro Francisco Tenório Júnior, passaporte nº 197803, de 35 anos, músico de profissão, residente na cidade do Rio de Janeiro. O mesmo encontrava-se detido à disposição do Poder Executivo nacional, o que foi oportunamente informado a essa Embaixada. O cadáver encontra-se à disposição da Embaixada, no morgue judicial de Buenos Aires, onde foi remetido (sic) para a devida autópsia''.

O inexplicável assassinato de Tenorinho fez com que sua refinada arte e sua reputação entre os músicos e aficcionados não fossem repassadas à geração posterior ao boom da bossa nova e, conseqüentemente, do samba-jazz ou sambop.

A reedição remasterizada em CD (Dubas Música) do LP Embalo (RGE), gravado em fevereiro e março de 1964 - um ano depois da apresentação de Tenorinho em Mar del Plata - é, assim, uma reparação há muito devida a um pianista que poderia ter hoje, lá fora, os mesmos prestígio e fama de que gozam Sérgio Mendes (seu companheiro do Beco das Garrafas), Eliane Elias, Duduka da Fonseca, Romero Lubambo ou Claudio Roditi.

O produtor Edison Viana caprichou na apresentação da reedição desse disco - um dos mais representativos do sambop: ''Francisco Tenório Cerqueira Júnior - escreve Viana no livreto bilíngüe do CD - gravou, aos 23 anos, este Embalo cuja pulsação nunca diminuiu, até hoje, 40 anos depois. Mesmo quem sabia do artista vibrante por trás do rapaz tranqüilo se surpreendeu com tanta energia vinda daquele músico tão recatado. Jovem, Tenorinho quase parecia apenas mais um admirador dos raríssimos LPs de jazz que o dinheiro da garotada de Laranjeiras podia comprar. Na antiga Faculdade de Ciências Médicas, onde Tenório trancou o curso, poucos sabiam que era um dos maiores pianistas de sua geração''.

Das 11 faixas de Embalo, cinco são de autoria do pianista: a faixa-título, Nebulosa, Samadhi, Néctar e Estou nessa agora.

Na primeira, arranjo de Paulo Moura, Tenorinho exibe um fraseado muito bem articulado e percussivo, lembrando Hampton Hawes. Mas é em Nebulosa e Néctar - duas peças de pequena duração, mas melódica e harmonicamente memoráveis, a partir de vamps simples - que o tão jovem Tenorinho encanta como inspirado inventor de temas.

É pena que, na época do LP, sobretudo em se tratando do primeiro de um músico até então reconhecido apenas como um excelente sideman, houvesse a preocupação de reunir o maior número possível de temas no limite dos 30 e poucos minutos das bolachas de 33 r.p.m. A média das faixas é de 2m54s (a mais curta, Estou nessa agora, tem 1m35s de duração).

Mesmo assim, em Embalo, Tenorinho e seus companheiros - quase todos músicos já notáveis no início de 1964 - deixaram registrados momentos marcantes, não apenas na base do ''recordar é viver'', mas também em matéria de qualidade de um produto musical resistente à erosão dos modismos inconsistentes.

A batida da bossa nova, ao descontrair o tempo, favorecia a decolagem de solistas e sidemen mais ou menos escolados, mas todos empolgados, que aparecem ao lado de Tenorinho, como os saxofonistas Paulo Moura e J.T. Meirelles, os trombonistas Raul de Souza e Edson Maciel, o trompetista Pedro Paulo, os bateristas Ronie Mesquita e Milton Banana, os baixistas Sérgio Barrozo e Zezinho Alves.


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[20/MAI/2004]


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