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A hora mágica de Wynton Marsalis


Quando tinha apenas 19 anos, o trompetista Wynton Marsalis iluminou o planeta do jazz, como uma das estrelas mais brilhantes reveladas pela ''universidade'' de Art Blakey - o conjunto Jazz Messengers que, com inesquecíveis formações diversas, durou 35 anos, até a morte do ''reitor'', em 1990.

Aos 38 anos, em 1999, Marsalis recebeu, pela terceira vez consecutiva, a distinção de músico e compositor do ano, no referendo de leitores da revista Down Beat. Em 1997, ganhou o Prêmio Pulitzer de música, por conta da ópera jazzística Blood on the fields. Foi o primeiro negro e o mais jovem compositor a conquistar o Pulitzer - prêmio que até então, na área musical, só contemplara compositores ''sérios'' como Aaron Copland, Charles Ives, Walter Piston, Virgil Thomson, Roger Sessions e Gunther Schüller.

Wynton tornou-se ''o mais reconhecível avatar vivo do jazz'', como comentou na época o crítico Howard Reich. Passou também a dirigir os programas e a orquestra de jazz do Lincoln Center, onde preserva e renova o legado dos ''avatares'' já falecidos com seu estilo bem sofisticado e moderadamente ''moderno''.

Apesar de toda essa folha corrida e da soberba discografia que acumulou como solista e compositor, Wynton Marsalis virou alvo dos guerrilheiros do fusionismo pop, para os quais o hip-hop e coisas do gênero são expressões musicais transcendentais, não passando o trompetista de um ''reacionário'' que tem o desplante de se apresentar nos palcos de terno Armani e gravata de seda pura.

Indiferente ao tiroteio dos medíocres e invejosos, o mais completo trompetista surgido no jazz, depois de Dizzy Gillespie e Clifford Brown, vem a lançar seu primeiro CD em pequeno conjunto, desde a magnífica Marciac Suite, lançado em 1999. The magic horn é também o primeiro álbum de Wynton para o selo Blue Note, depois de uma casamento de 22 anos com a Columbia.

O disco não é conceitual como Plays monk (1993-94) ou Mr.Jelly Lord (1999), da série Standard Time. E é bem menos trabalhado do que Big train - suíte de fôlego de 1998, gravada pela Lincoln Center Jazz Orchestra.

Trata-se de um CD despretensioso de oito faixas, em que mestre Marsalis se cerca de três jovens músicos por ele descobertos: Eric Lewis (piano), Carlos Henriquez (baixo) e Ali Jackson (bateria).

A faixa-título, de mais de 13 minutos, é o ponto culminante da sessão, com o trompetista esbanjando engenho e arte em arriscadas (mas irretocáveis) improvisações, a partir de uma espécie de vôo do besouro, concluído com um rallentando preguiçosamente bluesy, cujo ponto final é decididamente romântico.

Segundo Marsalis, a faixa sugere uma ''hora mágica'' familiar dividida em dois momentos. O primeiro é o da bagunça da criançada antes de ir para a cama; o segundo, aquele em que o casal, finalmente a sós, aninha-se na sua intimidade. E vale lembrar que o papai-pianista Ellis e a mamãe Dolores tiveram, além de Wynton, outros cinco filhos, dos quais três também músicos vitoriosos: o saxofonista Branford, o trombonista Delfeayo (produtor do CD) e o baterista Jason.

A mini-suíte Magic hour não é, no entanto, música descritiva de consistência melosa. Como em tudo que Wynton escreve e desenvolve, a consistência musical está em primeiro lugar. Só para se ter uma idéia de seu perfeccionismo, Dan Ouelette conta na última edição da Down Beat (abril) que Free to be - uma das melhores peças do disco, com solos quentes do líder e de Eric Lewis - só foi considerada pronta no 17º take.

Das demais faixas, merecem especial destaque a suculenta Big fat hen, marcada por expressivas variações rítmicas em torno do balanço básico second line das marching bands de Nova Orleans, e Skipping, composição saltitante como bem exprime o título, de características monkianas.

O novo álbum de Wynton Marsalis tem duas concessões para atingir um público maior: The feeling of jazz e Baby, I love you, com vocais, respectivamente, de Diane Reeves e do sempre original Bobby McFerrin - no caso, rememorando vocalistas-instrumentistas dos anos 40, tipo Jack Teagarden.

Mesmo críticos que fazem restrições a The magic horn, como Thomas Conrad (Jazz Times, abril), reconhecem que a estréia de Wynton Marsalis na Blue Note é ''imaculada'', em termos de execução.

O próprio músico assume que sua última obra é simplesmente uma continuação do que sempre tem feito: ''Estou apenas reafirmando minha proposição básica sobre a música de jazz, com o meu quarteto.(...) Minha música provém da mesma fonte. Não passo por períodos. Desde meu primeiro álbum, minha meta tem sido sempre a afirmação do jazz. Blues e swing. Escrito e improvisado''.


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[01/ABR/2004]


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