A idade média dos dez líderes dos nove conjuntos que vão se apresentar na quinta edição do Chivas Jazz Festival (de 5 a 8 de maio, no Rio e em São Paulo) é de 65,5 anos. Mas enganam-se os que imaginam tratar-se de um festival dedicado apenas aos saudosistas e jazzófilos que só têm intimidade com a moderna
mainstream, consolidada a partir do bebop.
Mais uma vez, a programação de um dos mais refinados festivais internacionais de autêntico jazz é eclética. Mas sem concessões a quem curte mais som do que música. Em termos de contemporaneidade, o Chivas Festival segue a definição do sofisticado pianista-compositor Andrew Hill, 66 anos, que estará no palco da Marina da Glória, na noite de 6 de maio: ''Contemporâneo não significa só o que é novo, mas algo que resiste ao teste do tempo''.
Às vésperas de completar 78 anos, o ''contemporâneo'' saxofonista alto Bud Shank vai abrir o Chivas no Rio, apoiado por um dream team que não é, simplesmente, uma seção rítmica: Bill Mays (piano), Bob Magnusson (baixo) e Joe LaBarbera (bateria).
Shank nasceu, como o falecido Gerry Mulligan, em 1926, um ano antes do ainda ativo Lee Konitz. Eles, Chet Baker, Shorty Rogers, Art Pepper, Jimmy Giuffre, Shelly Manne e outros legendários músicos da West Coast deram corpo e alma ao cool jazz, lá se vai meio século.
Paradoxalmente, o líder mais idoso dentre os jazzmen selecionados para o 5º Chivas Festival é também o mais out e iconoclasta. O saxofonista Marshall Allen, quase 80 anos, dirige a Sun Ra Arkestra - ''orquestra-fantasma'' que preserva o espírito e os arranjos do controverso Herman Sonny Blunt, nascido em 1914, no Alabama, mas que insistia ter vindo de Saturno, e não da declinante orquestra de Fletcher Henderson, da qual foi pianista-arranjador (1946-47).
Allen foi pioneiro do free jazz, passou 40 anos na seção de palhetas da Arkestra de Sun Ra e assumiu o comando da extravagante comunidade musical, três anos depois da morte do performático ''saturniano'' - cuja condição de gênio ou charlatão é discutida até hoje.
Mas os experts são unânimes em reconhecer a excelência da música produzida pelo sexagenário Andrew Hill e pelo trompetista-compositor Tom Harrell, 57 anos.
Hill é um compositor dark, denso, inventor de harmonias difusas, politonais, e um improvisador minimalista. Vem ao Chivas com um trio (John Hebert, baixo; Nasheet Waits, bateria) e não com a orquestra no comando da qual gravou ao vivo, em 2002, o CD A beautiful day, recebido pela crítica mais exigente como um dos pontos culminantes de sua discografia.
Nos últimos dois anos, Tom Harrell foi o terceiro colocado no referendo anual dos leitores da Down Beat, logo depois de Dave Douglas e Roy Hargrove. Tocou muitos anos no grupo do saxofonista Phil Woods, lutou contra a esquizofrenia e afirmou-se como um admirável estilista, tendo como base o som caloroso de Art Farmer, a pungência de Kenny Wheeler e o senso espacial de Miles Davis. Vem ao Brasil à frente de um quinteto, integrado pelos emergentes Xavier Davis (piano) e Jimmy Greene (sax tenor).
Julian ''Cannonball'' Adderley é a razão de ser da Legacy Band do baterista Louis Hayes, 66 anos, pioneiro do hard bop, ao lado daquele prodigioso sax alto, falecido em 1978, aos 49 anos. O quinteto que recria o seu legado tem, na linha de frente, Vincent Herring - a reencarnação musical de ''Cannonball'' - e Jeremy Pelt, trompetista-revelação de 27 anos. O quinteto é de primeira e vai agradar a gregos e troianos.
Sheila Jordan (75 anos), como a falecida Betty ''Bebop'' Carter, é uma artista cujo instrumento é a voz e não uma simples vocalista que se sente à vontade num clima jazzístico. Sempre esteve na companhia de músicos avançados, como é caso do excepcional (e subestimado) pianista Steve Kuhn (66 anos), em companhia de quem vai encerrar a segunda noite do Chivas Festival, no Rio.
O notável acordeonista Richard Galliano, 53, que se apresentou no Brasil em 2002, em duo com Michel Portal, será o representante do jazz europeu no Chivas. Dessa vez, ele traz o French Touch Quartet, ou seja, jazz com um toque de bal musette.
A noite mais longa do festival de maio, na Marina da Glória, será a penúltima. Depois do quinteto de Tom Harrell, os cariocas terão a oportunidade de um reencontro com o sambop de Raul de Souza, 69, grande trombonista e cidadão do mundo, e de descobrir a banda nada ortodoxa do baterista Bobby Previte, 46 anos. A formação da Bump the Renaissance Band de Previte é de espantar os tradicionalistas: Steve Swallow (baixo elétrico), Marty Ehrlich (sax tenor), Wayne Horwitz (piano) e Curtis Fowlkes (trombone).