Se há dois músicos representativos do constante renascer do jazz desse início de século seus nomes são Dave Douglas e Brad Mehldau.
Jelly Roll Morton afirmava, com sua folclórica imodéstia, ter inventado o jazz, em 1906. Morton morreu aos 51 anos, em 1941, quando Louis Armstrong, Duke Ellington e Coleman Hawkins já haviam reinventado o modo de expressão musical batizado em Nova Orleans, e o bebop surgia nas madrugadas do Harlem.
Volta e meia, o jazz é dado como morto ou esclerosado. Mas não é o que pensam e provam o trompetista Dave Douglas e o pianista Brad Mehldau, também respeitados compositores. Els abrem a temporada de 2004 com dois lançamentos que certamente vão aparecer nas futuras listas de melhores CDs do ano: Strange liberation (Bluebird 50818), gravado pelo quinteto do trompetista com o ilustre convidado Bill Frisell (guitarra), em janeiro do ano passado; Don't explain (Palmetto 2096), um recital de poesia musical do pianista, em duo com o saxofonista (tenor e soprano) Joel Frahm.
Douglas e Mehldau (41 e 33 anos, respectivamente) estão na crista da onda desde a segunda metade da última década. Em 1999, o primeiro foi escolhido ''o artista de jazz do ano'' pelos críticos da revista Jazz Times. No mesmo ano, os leitores da Down Beat elegeram Mehldau o pianista do momento, à frente de ''monstros sagrados'' como Kenny Barron, Keith Jarrett e Herbie Hancock.
O trompetista-compositor tem um domínio total da massa sonora de seu instrumento (e do flugelhorn), esculpindo-a em formas musicais abstratas, fragmentárias, às vezes lancinantes. Seu som é um raro amálgama de sonoridades diversas (Miles Davis, Woody Shaw, Kenny Wheeler, Don Cherry). Sua mente tem o brilho e a inquietude do pianista Uri Caine - integrante do quinteto habitual de Douglas, que se apresentou no Brasil, em 2001, no Chivas Jazz Festival.
O notável músico não tem um ''estilo'' definido. Para ele, a arte da improvisação não deve ser escrava da tonalidade convencional, nem da forma tema com variação, a partir de standards, com base apenas no swing cadenciado e no tempero do blues. Sente-se confortável no ''precipício'' do jazz pós-bop (Stargaze, de 1997), no quarteto com violino e acordeão de temática balcânica-judaica (A thousand evenings, o premiado álbum de 2000), ou no bem free Tiny Bell Trio (Brad Shoeppach, guitarra; Jim Black, percussão).
Seu recente CD Freak in (Bluebird), lançado também por aqui (BMG), é uma obra híbrida e artificial, toldada por nuvens eletrônicas pré-fabricadas, com o emprego de sintetizadores.
Mas Strange liberation é um desenvolvimento de The infinite ( de dezembro de 2001), com a adição da guitarra de Bill Frisell. A eletricidade gerada (nos dois sentidos da palavra) por Frisell, pelo Fender de Caine e pelo baixo de James Genus não é apelativa ou gratuita. O clima sônico remete ao espírito difuso da música de Miles Davis do final dos anos 60 (Filles de Kilimanjaro). Os solos e comentários de Douglas (autor das 11 peças do disco) e de Chris Potter (sax tenor e clarinete baixo) são sublimes.
Nas notas sobre Strange liberation, Dave Douglas deixa clara sua filosofia: ''Diz-se que liberdade sem limitações não tem sentido. Esta banda explora as fronteiras da liberdade e modifica as regras com paixão e lógica irrefreáveis. O que tocamos tem referências às grandes tradições da música americana, mas é expresso numa linguagem única e pessoal, sem conotação temporal''.
O CD Don't explain, do duo Joel Frahm-Brad Mehldau, é bem mais acessível a ouvidos menos afeitos a conceitos musicais extravagantes. Mas é particularmente interessante por demonstrar, mais uma vez, como se processa no jazz a reinvenção melódico-harmônica de temas conhecidos, sobretudo quando se trata de um tête-à-tête entre um músico excepcional (Mehldau) e um outro em processo de afirmação (o saxofonista Frahm).
O virtuose do piano, faiscador de harmonias mágicas e densas, uma espécie de Bill Evans pós-moderno, força seu ex-colega de escola a vôos mais audaciosos, a partir de standards jazzísticos, como Oleo (Sonny Rollins) e Round midnight (Thelonious Monk). Ou de temas populares, como Smile (Charles Chaplin) e Mother's nature son (Beatles).
Há duas versões da inefável balada de Monk, de 4m 39s e 7m35s, respectivamente.
Joel Frahm e Brad Mehldau mostram, na intimidade do duo, como o jazz continua a ser reinventado quase 100 anos depois de Jelly Roll Morton ter assumido a sua paternidade.