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A arte inovadora do virtuose Malachi Favors

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A arte inovadora do virtuose Malachi Favors


Na semana passada, a nata dos velhos e novos jazzmen de Chicago, criadores ou crias da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), reuniu-se para a cerimônia fúnebre de Malachi Favors ''Maghostut'', virtuose do contrabaixo, percussionista e um dos fundadores do Art Ensemble of Chicago - o mais emblemático grupo cooperativo do free jazz , desde que surgiu no final dos anos 60, sob o lema ''a grande música negra - da antiguidade ao futuro''.

Com a morte de Favors, o AEC - nascido como um quarteto, logo transformado em quinteto, mas reduzido a um trio, com o afastamento de Jarman e o falecimento de Lester Bowie, em 1999 - deixa como legado uma discografia formidável, recentemente acrescida do CD Tribute to Lester (ECM 1808). Esse disco foi gravado em setembro de 2001, quase um ano depois da inesquecível apresentação de Favors-Roscoe Mitchell-Don Moye no Free Jazz Festival, no Rio e em São Paulo.

O sempre introspectivo Malachi Favors morreu de câncer no pâncreas, provavelmente com 76 anos. Não se sabe ao certo a data de seu nascimento.

Mas é sabido que ''Maghostut'' (nome que Malachi Favors acrescentou ao seu, e que significa ''sou o anfitrião'', em algum dialeto africano), o trompetista Lester Bowie, os saxofonistas Roscoe Mitchell e Joseph Jarman, mais o percussionista Famoudou Don Moye, trocaram os Estados Unidos pela França, em 1969, a fim de criar e difundir um tipo de free jazz muito indigesto para o público americano. Na metade da década de 60, muitos críticos de jazz ainda reagiam à revolução iniciada por Ornette Coleman, John Coltrane e Albert Ayler, que eram recebidos como gênios nas salas de concerto européias.

Em 1965, o pianista-compositor Muhal Richard Abrams, Malachi Favors, Jodie Christian (piano), Steve McCall (bateria) e outros vanguardistas de Chicago fundaram a AACM, com o seguinte objetivo principal: ''Educar os músicos jovens e criar uma música de nível artístico elevado, que seja apresentada ao grande público, em situações destinadas a enaltecer a importância da música criativa''.

Em matéria de criatividade e excelência performática, o AEC foi o principal fruto da AACM.

Se no início eram apenas Mitchel (sax alto), Bowie e Favors, em abril de 1969 Joseph Jarman juntou-se ao grupo, trazendo seus vários tipos de saxofones e outras palhetas. Também aumentou o estoque de instrumentos de percussão (apitos, gongos, sirenes, buzinas, sinos, panelas), sempre à disposição de quaisquer dos integrantes do grupo, na criação de uma música coletiva, anárquica, politonal e polirrítmica, violenta ou pungente, a partir de simples vamps, temas mais elaborados, ou de standards jazzísticos, sobretudo de Thelonious Monk, devidamente desconstruídos.

Esses artistas admiráveis fizeram do Art Ensemble of Chicago um vulcão em constante erupção. O magma decorrente era uma mistura de paráfrases bem humoradas, manifestações iradas, naïveté assumida em tensão permanente com as mais ousadas concepções pantonais pós-modernas. Enfim, uma proposta contemporânea bem realizada, durante mais de 30 anos, de investigação arqueológica e antropológica do jazz como modo expressionista de fazer música.

O tribalismo inerente à africanidade do AEC refletia-se também na teatralidade do conjunto, em suas apresentações. O uso de túnicas africanas, chapéus exóticos, as caras pintadas como máscaras sublinhavam a meta musical do grupo: a dramatização do jazz.

- O teatro - explicava Malachi Favors - é parte integrante da cultura tradicional africana, como também da chinesa.

O baixista-percussionista deixou ainda importantes registros musicais como integrante do Ritual Trio, grupo vanguardista igualmente de Chicago (Kahil El' Zabar, percussão; Ari Brown, saxofones e piano). Os mais recentes são de 1999: Conversations (Delmark 514), com Archie Shepp como convidado, e Africa N'Da blues (Delmark 519), com a participação de Pharoah Sanders, outro grande saxofonista do jazz pós-coltraneano.

Uma discoteca representativa de todos os estilos de jazz não pode prescindir de um ou dois álbuns do AEC. Os mais indicados são Fanfare for the warriors (Koch 8501), Original Atlantic, de 1974; Nice guys (ECM 1126), de 1978; ou a seleção da série Rarum da ECM, contendo oito faixas de discos dos anos 70 e 80.


[12/FEV/2004]


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