Na década de 70, com o predomínio comercial da fusão jazz-rock - cujo marco inicial foi o eletrificado hit de Miles Davis,
Bitches brew, artificialmente montado em estúdio - os músicos que teimavam em tocar instrumentos acústicos, no idioma pós-bop, enfrentaram sérios problemas de sobrevivência.
Quem não aderiu à onda do crossover, aos pianos elétricos e sintetizadores - como Chick Corea, Herbie Hancock e Joe Zawinul -, teve de buscar emprego nos estúdios, nos fossos dos teatros da Broadway ou virar motorista de táxi. Até o já canonizado Bill Evans foi obrigado a trocar, em algumas gravações, o Steinway pelo Fender Rhodes.
A turma do free jazz, da livre improvisação, refugiou-se nos lofts do South Side de Nova York, apresentando-se em noitadas anunciadas ao pé do ouvido, como informações confidenciais. Apenas o Art Ensemble of Chicago e Cecil Taylor conseguiram uma exposição razoável, mesmo assim em sessões de gravação e festivais alternativos na Europa. Ornette Coleman havia aderido às exigências comerciais do mercado com o grupo Prime Time, na fronteira ambígua entre o jazz e a música pop planetária.
A revista Jazziz dedicou seu número de novembro a teclados e tecladistas, do grand piano de McCoy Tyner (reportagem de capa) ao órgão Hammond B3, veículo do lendário Jimmy Smith, em fase de renascimento nas mãos (e nos pés) de Joey DeFrancesco, Larry Goldings, Tony Monaco e especialistas ainda mais jovens.
Mas são os sintetizadores e demais engenhocas plugadas de teclas, sem a profundidade e as sutilezas dos órgãos elétricos, que continuam na berlinda. Trinta anos depois, a comunidade jazzística ainda está dividida quando se faz a pergunta: ''Como a energia elétrica tem afetado os instrumentos de teclas?''.
Para a plugada Rachel Z, ''a eletricidade está para os teclados como o Kama Sutra para o sexo - fez uma coisa boa (o piano) ficar melhor''. A pianista e cantora de blues Ann Rabson, 58 anos, também recorre ao sexo para ilustrar sua opinião: ''Acho que a diferença entre um piano eletrônico e um piano verdadeiro é como a diferença entre um homem e um vibrador (...). Tocar um piano verdadeiro é uma colaboração. Tocar um eletrônico é - bem, vocês podem imaginar''.
Os sentimentos altamente espontâneos de Rachel Z e Ann Rabson fixam bem os dois campos antagônicos. Mas nada melhor do que ler as lúcidas análises de Jean-Michel Pilc e D.D. Jackson, dois virtuoses do piano (acústico) surgidos nos últimos anos, e justamente incluídos pela crítica e pelo público exigente entre os mais criativos e notáveis músicos da atual cena jazzística. Radicados em Nova York, Pilc é francês, e tem 43 anos; Jackson, 36, nasceu no Canadá. O primeiro tocou com grande sucesso, no Rio e em São Paulo, no Chivas Jazz Festival, em 2002.
Diz Pilc: ''A mais importante forma de eletricidade está localizada no cérebro humano. A meu ver, o instrumento usado por um músico é secundário para a voz e a personalidade únicas do artista; as possibilidades tecnológicas, embora poderosas, são secundárias se comparadas a coisas humanas simples e essenciais, como emoções e sentimentos. Em arte, a energia e a eletricidade são geradas humanamente, acima de tudo''.
Para Jackson, que é pianista-compositor tradicionalmente acostumado a escrever no velho método da caneta no papel, ''o advento de teclados digitais (incluindo tecnologia midi e de computador) teve um impacto realmente revolucionário na nossa maneira de trabalhar (...). A possibilidade de testar idéias para futuros arranjos, usando esses teclados e a tecnologia midi, anotando tudo via programa de computador, foi um avanço absolutamente essencial, em termos de ferramenta. Em última análise, a tecnologia é simplesmente uma ferramenta, uma outra avenida para expandir as possibilidades de expressão de alguém''.
O pianista-organista Bruce Katz, professor do Berklee College of Music, resssalta o ''efeito negativo'' dos teclados plugados em seus estudantes: ''Os tecladistas estão virando eletricistas, técnicos em 'sons' e máquinas de programação, algumas vezes perdendo de vista o que a música realmente é: expressão pessoal e comunicação (...). Acho ainda que outro efeito infeliz é que muitos tecladistas acabam tirando o mesmo som do mesmo sintetizador''.