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As pedras fundamentais de um trio interativo

Hildegard Angel

 


As pedras fundamentais de um trio interativo


Cinco dos 15 CDs do pacote de fim de ano da BMG-Fantasy, com reedições caprichadas de LPs dos anos 50, 60 e 70 dos selos Riverside, Prestige, Contemporary e Pablo, foram aqui comentados na semana passada. Um dos dez itens restantes dessa seleção, agora disponível no Brasil, está entre aqueles discos que se levariam para a tal ilha deserta: Waltz for Debby, com o trio original de Bill Evans. Os demais têm lugar em qualquer boa discoteca de jazz, mas The return of Tal Farlow merece especial atenção.

Em 25 de junho de 1961, a Riverside gravou ao vivo, no Village Vanguard, o trio do pianista Bill Evans (então com 31 anos), com Scott LaFaro (baixo) e Paul Motian (bateria). Os sets renderam os históricos e fascinantes álbuns Sunday at the Village Vanguard (já lançado no Brasil) e Waltz for Debby, que são as pedras fundamentais da discografia do trio interativo de Evans.

Na contracapa do primeiro LP, Ira Gitler escreveu que, ao ouvi-lo, sentia-se tão absorto a ponto de perder a consciência de seu próprio corpo, ''transformado num grande ouvido, equipado apenas com a psique''.

O mesmo sentimento pode ser estendido a Waltz for Debby. A encantadora faixa-título é sinônimo da finesse de Evans. O tema já aparecera em New jazz conceptions (1956), mas apenas como um esboço, num solo de um minuto.

Na nova versão do antológico álbum, além de um outro take de Waltz, há alternate takes de Detour ahead e My romance, não constantes do LP.

Tal Farlow (1921-98) foi um guitarrista notável, do nível de Barney Kessel, especialista em nuances e efeitos de timbre requintados. Fez o nome, no início da década de 50, no trio do vibrafonista Red Norvo (o baixista era Charles Mingus). Muito respeitado em Nova York, preferia atuar em Nova Jersey. Suas apresentações e gravações foram raras nos anos 60 e 70. Daí a importância da reedição de The return of Tal Farlow (original Prestige, 1969), em que o guitarrista lidera um quarteto com John Scully (piano), Jack Six (baixo) e mestre Allan Dawson (bateria).

No pacote da BMG, há um outro CD de Bill Evans: Interplay (Riverside, 1962). A grande maioria dos discos do pianista como líder foi em trio. Mas há exceções de algum interesse, como esses registros com Freddie Hubbard (trompete), Jim Hall (guitarra), Percy Heath (baixo) e Philly Joe Jones (bateria). Com tal seção rítmica, Bill Evans não podia ser tão introspectivo como de hábito.

The good life (Pablo, 1973) é um ótimo momento do trio de Oscar Peterson com Joe Pass (guitarra) e Niels Henning Orsted Pedersen (o ''Nhop''), então com 27 anos, e já um dos maiores virtuoses do contrabaixo do planeta. A discografia do pianista canadense - há muito uma instituição universal - é enorme. Esse CD contém cinco faixas com brilhantes solos e integração perfeita. Entre os temas escolhidos, Wave e o blues intitulado For Count.

Os fãs incondicionais de Chet Baker e de Joe Pass não vão resistir ao CD do trompetista tocando temas de Lerner & Loewe (Riverside, 1959) e a Virtuoso 3 (Pablo, 1977).

O álbum de Chet foi provocado pelo sucesso de My fair lady (de Lerner & Loewe) e abriga oito faixas, entre as quais I've grown accustomed to her face e I could have danced all the night. O lírico trompetista está impecável, à frente de um conjunto de craques, como Zoot Sims (sax tenor), Pepper Adams (barítono) e Bill Evans (piano). O disco solo de Pass não é superior ao primeiro Virtuoso (já lançado no Brasil), mas é sempre uma aula de técnica e criatividade (parece tão fácil!).

African Waltz (Riverside, 1961) não é disco obrigatório de ''Cannonball'' Adderley. Nesse álbum, o legendário sax alto reina por sobre uma orquestra em 11 arranjos de Ernie Wilkins e Bob Brookmeyer. Pouco espaço para solos mais atrevidos.

Movin' along (Riverside, 1960) é dispensável para quem já tem The incredible jazz guitar of Wes Montgomery, lançado aqui no início do ano.

All mornin' long (Prestige, 1957) é um quinteto típico hard bop, em nome do pianista Red Garland (então no grupo de Miles Davis), com John Coltrane (sax tenor) e Donald Byrd (trompete), em clima de jam session. A faixa-título tem mais de 20 minutos.

In Person (Riverside, 1961), do pianista soul bop Bobby Timmons, gravado ao vivo no Village Vanguard (Ron Carter, baixo; Al Heath, bateria), é muito atraente. Dat dere - um dos hinos do soul jazz, como Moanin' - é uma das marcas registradas do original pianista de Adderley e de Art Blakey, e sua melodia e espírito são recorrentes no disco.


[27/NOV/2003]


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