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O saxofonista que extrai lágrima do som

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O saxofonista que extrai lágrima do som


Duas das obras-primas de Charles Mingus foram gravadas para o selo Impulse, em janeiro de 1963: a suíte The black saint and the sinner lady, de quase 40 minutos, e o LP Mingus Mingus Mingus. São peças de arquitetura sólida, mas com muito espaço para a improvisação, envolvendo dez músicos, além do baixista-compositor.

Na época, os álbuns botaram lenha na fogueira do nascente free jazz, na linha do caos organizado de Mingus - criador de uma música passional em que ódio e amor, agressividade e ternura, consonâncias e dissonâncias misturam-se em movimentos subversivos.

Um dos mais destacados solistas desses dois discos é o saxofonista alto Charlie Mariano, bostoniano há muito radicado na Alemanha, ex- aluno e ex-professor da então Berklee School of Music, e também ex-marido da pianista e chefe de orquestra Toshiko Akiyoshi.

Pois Mariano chegou ontem aos 80 anos, aparentemente bem de saúde e de sopro. Pelo menos assim estava, há dois anos, quando gravou o CD Deep in a dream (Enja-Justin Time), recentemente lançado nos Estados Unidos e na Europa.

Charlie (Carmine Ugo) Mariano era um notável saxofonista, descendente estilístico de Charlie Parker. Mas não escondia, no tratamento de baladas, sua devoção pelo ellingtoniano Johhny Hodges, cujo som foi descrito por Boris Vian como ''a sensualidade em estado puro, separada do corpo''.

Charles Mingus disse uma vez que Mariano conseguia ''extrair lágrimas de som'' do sax alto, quando era o caso. A admiração de Mingus por seu sideman ficou patenteada, sobretudo, nas duas faixas que lhe dedicou em Mingus Mingus Mingus: I x love e Celia.

A interpretação dessas baladas na moldura orquestral densa e dramática armada pelo genial baixista-compositor consolidou o prestígio do hoje octogenário saxofonista, que já fora destaque, dez anos antes, na orquestra de Stan Kenton, ao lado de outros ''cobras'' como Bill Perkins (sax tenor) e Frank Rosolino (trombone), tocando primorosos arranjos de Bill Russo e Bill Holman.

Charlie Mariano praticamente sumiu do mapa do jazz nas últimas décadas, desde que viajou com sua então mulher, Toshiko, para o Japão, e se encantou com os sons e escalas orientais. Andou pela Malásia e acabou por descobrir a Índia. Já influenciado pelo jazz modal de John Coltrane, trocou o sax alto pelo soprano. E foi mais fundo. Estudou e passou a tocar uma espécie de oboé indiano - o nagaswaram, segundo a grafia inglesa.

Daí para a chamada world music de feitio europeu, apreciada por gravadoras como a ECM e outras bem desconhecidas, foi um pulo. O bostoniano que tocava bebop acabou por se fixar em Colônia, apresentando-se e gravando com grupos tão diversos como a United Jazz and Rock Ensemble e o Colours, do baixista Eberhard Weber.

A última referência discográfica que se tinha de Mariano - até o recente e atraente Deep in a dream - era o CD Savannah samurai, gravado em 1998, pelo selo alemão JazzLine, na boa companhia de Vic Juris (guitarra) Dieter Ilg (baixo) e Jeff Hirshfield (bateria).

No disco com o qual comemora 80 anos, Charlie Mariano lidera um quarteto integrado por Bob Degen (piano), Isla Eckinger (baixo) e Jarrod Cagwin (bateria). São oito standards bem românticos, do tipo The touch of your lips e Spring is here, além de dois originais: Dew drops, de autoria do líder, de sabor oriental, e Etosha, de Degen.

O CD Deep in a dream (faixa-título, de Jimmy Van Heusen) é um lírico ''recordar é viver'' de Charlie Mariano. Indicado para os nostálgicos, mas também para os que nunca ouviram essa ave rara do jazz.


[13/NOV/2003]


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