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Conferência de cúpula de geniais saxofonistas

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Conferência de cúpula de geniais saxofonistas


O saxofone está para o jazz, em matéria de símbolo, como a guitarra para o rock, desde os tempos em que Coleman Hawkins ''reinventou'' o instrumento criado por Adolphe Sax, há 160 anos, pensando mais em bandas militares do que em orquestras sinfônicas.

Lester Young, Sonny Rollins, Dexter Gordon, Stan Getz, Sonny Stitt e John Coltrane foram os grandes mestres e estilistas do sax tenor posteriores a Hawkins. Desses gigantes, o único ainda vivo (e ativo) é o chefe de escola Sonny Rollins, 73 anos. Wayne Shorter, que acaba de chegar aos 70, consolidou definitivamente sua posição entre os maiores saxofonistas de todos os tempos.

Da geração que ouviu muito e sucedeu esses titãs, Joe Lovano (51 anos), Michael Brecker (54) e Dave Liebman (57) estão, sem dúvida, entre os mais notáveis saxofonistas tenores em atividade na cena jazzística.

Pois bem. Lovano, Brecker e Liebman formaram, neste fim de ano, o Saxophone Summit, conjunto que vem se apresentando nos festivais de outono da Europa. E, como não podia deixar de ser, a trinca de ases escolheu uma seção rítmica de alto nível: os celebrados Billy Hart (bateria) e Cecil McBee (baixo), além do pianista Phil Markowitz - um refinado músico para músicos, que foi sideman de Chet Baker (1979-83), integrante da orquestra do Village Vanguard (1983-86) e associado freqüente de Liebman e do também saxofonista Bob Mintzer.

O Saxophone Summit é um dos acontecimentos mais importantes do ano no planeta do jazz. Espera-se que o CD-registro dessa ''conferência de cúpula'' seja lançado em meados do próximo ano, como ocorreu com dois álbuns excepcionais gravados em 2001 e selecionados pela crítica mundial dentre os dez melhores editados em 2002: Directions in music (Verve), uma celebração-reinvenção da música de Miles Davis e John Coltrane, ao vivo, no histórico Massey Hall de Toronto, com o dream team Brecker-Herbie Hancock (piano)-Roy Hargrove (trompete)-John Patitucci (baixo)-Brian Blade (bateria); Footprints live! (Verve), obra-prima da discografia de Wayne Shorter, com registros também ao vivo do quarteto free integrado por Danilo Perez (piano), Patitucci e Blade, em concertos realizados na Europa.

Imagine-se o que deve ser a concelebração da música de jazz, em seu mais alto grau de técnica e criatividade, por Lovano, Brecker e Liebman, cada um deles mantendo a integridade de seus sopros e invenções bem pessoais, mas ligados por marcantes laços de parentesco. Afinal, todos são descendentes de Coltrane, embora o primeiro não esconda sua filiação real, quando demonstra aquela nostalgia da Rua 52 dos anos 40 e 50, quando seu pai, ''Big T'' Lovano, igualmente saxofonista, tocava com Tadd Dameron.

Michael Brecker - depois de aprimorar seus dotes jazzísticos como sideman de Horace Silver (1973-74) e de acabar aderindo ao sucesso fácil da fusão e do sax eletrônico (EWI) - voltou à seara do jazz propriamente dito nos anos 90, como líder ou co-líder de três ótimos discos: Tales from the Hudson (Impulse), com Pat Metheny (guitarra) e McCoy Tyner (piano); The hardbop grandpop (Impulse), ao lado de seu antigo patrão Horace Silver; e Time is the essence (Verve), novamente com Metheny e o órgão B-3 de Larry Goldings. É um dos mais sólidos e enérgicos saxofonistas do jazz contemporâneo.

Dave Liebman é o mais out dos três, como demonstrou, aqui no Rio, no Chivas Jazz Festival do ano passado. À frente de um quarteto em que se destacava a miraculosa guitarra de Vic Juris, Liebman promoveu um happening ultra-sônico de 20 minutos, soltando centenas de ''folhas de som'' tão alvoroçadas como as de Coltrane, numa recriação revolucionária e inesquecível de My favorite things.


[30/OUT/2003]


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