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Joe Lovano: entre o bop e o abismo da vanguarda

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Joe Lovano: entre o bop e o abismo da vanguarda


O saxofonista tenor Joe Lovano, 51 anos, foi eleito artista de jazz do ano nos referendos internacionais de críticos da revista Down Beat em 1995, 1996 e 2001. O tricampeonato foi conquistado, em boa parte, graças ao sucesso de 52nd Street themes (Blue Note 96667), gravado em novembro de 1999, mas lançado um ano depois. O CD - no qual sete das 13 faixas são interpretadas pelo líder à frente de um noneto de músicos do primeiro time de Nova York - é um tributo à infância do bebop naquela rua mágica, com base em arranjos de Willie ''Face'' Smith. A temática do álbum era centrada em cinco composições do inesquecível Tadd Dameron, entre elas If you could see me now, Tadd's delight e The scene is clean (esta em trio).

O CD Joe Lovano nonet/ On this day at the Vanguard, recém-lançado também no Brasil (Blue Note-EMI), é a gravação ao vivo de um set do grupo em setembro do ano passado, naquele porão do Village, que é a catedral do jazz em Nova York.

Dois terços do noneto de 52nd Street themes estão no novo álbum de Lovano: os tenoristas George Garzone e Ralph Lalama, Steve Slagle (sax alto), John Hicks (piano), Lewis Nash (bateria) e Dennis Irwin (baixo). Scott Robinson (sax barítono) substitui Gary Smulyan; Barry Ries (trompete) entra no lugar de Tim Hagans; Larry Farrell (trombone), no de Conrad Herwig. Ou seja, a alta qualidade do noneto foi mantida.

Mas a música desse último CD de Lovano - destinado a ser um dos melhores discos de jazz do ano - é ainda mais atraente e, em alguns momentos, bem mais intensa e audaciosa do que o tributo à Rua 52.

O disco gravado ao vivo no Village Vanguard tem apenas sete faixas, com duração média de quase dez minutos (Laura, de pouco mais de cinco minutos, é a mais curta; On this day, o ápice do disco, ultrapassa 15 minutos).

Tadd Dameron - com quem chegou a tocar o pai de Joe, o também saxofonista ''Big T'' Lovano - não é esquecido na reapresentação do noneto. Lovano arranja e interpreta um espetacular Good bait, em tempo rápido, durante mais de 13 minutos, com solos também exemplares de Lalama, Farrell, Robinson, Garzone e Hicks. Willie ''Face'' Smith cuida da orquestração de Focus.

Nas notas do álbum, Joe Lovano diz a Ted Panken: ''Não quero ter uma penca de instrumentistas repetindo arranjos ensaiados e petrificados. Quero uma banda que crie música, com uma estrutura segura e sólida, mas com liberdade para a contribuição de cada um (...). Todos os caras tocaram em grandes orquestras. São improvisadores e músicos sérios em matéria de conjunto, mas aparecem com suas contribuições na hora (in the moment)''.

Lovano atinge plenamente seu objetivo em On this day at the Vanguard, sobretudo na faixa título, que é uma homenagem a Billy Higgins, um dos príncipes da moderna bateria no jazz, falecido em dezembro de 2001.

O ambiente íntimo, a história de mais de 60 anos e a acústica do Village Vanguard fazem qualquer jazzman crescer, ainda mais quando sabe estar sendo gravado no basement de Lorraine Gordon.

A música de Lovano é sempre audaciosa, sendo difícil determinar em seus solos a tênue linha entre o in e o out, entre o sólido terreno do bop e o abismo da vanguarda. O saxofonista é capaz, na mesma noite, de acariciar suave e indiretamente o corpo da melodia de Laura e logo embarcar na aventura free de On this day (Just like any other) - 15 minutos de ''cada um por si, Deus por todos'', a partir de um tema de nove notas (on-this-day-just-like-a-ny-oth-er) e outro de oito, repetindo ritmicamente as sílabas de Bil-ly Hig-gins.

Nessa faixa, merece destaque especial o magnífico baterista Lewis Nash, um dos mais ocupados jazzmen de Nova York. Steve Slagle brilha como arranjador na balada After the rain, de John Coltrane, que contém um solo vaporoso, elusivo, típico de Lovano. O fecho do álbum é uma versão, em quarteto, da raramente lembrada My little brown book, peça de Billy Strayhorn que Coltrane gravou com Duke Ellington naquele encontro que o selo Impulse registrou, em 1962.


[09/OUT/2003]


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