Neste fim de semana, o Rio perdeu mais dois cinemas. Como havia sido anunciado dias antes, os Largo do Machado 1 e 2 transformaram-se em outro grande templo da Igreja Universal do Reino de Deus.
Pode-se chorar a perda de mais duas salas no Largo do Machado, região onde subsiste o São Luiz - magnificamente recuperado recentemente - mas que perdeu, ao longo dos anos, espaços extraordinários como o Politheama e o Azteca. Todos eram exemplos soberbos das grandes arquiteturas temáticas - das quais era também o São Luiz original, uma bela réplica do Radio City Music Hall, de Nova York. Para não falar do Top Cine, que mais tarde ficou abrigado justamente na galeria que se ergueu no lugar do antigo Azteca.
Mas pode ser também que não caiba agora esse tipo de lamento. As salas estavam há muito tempo abandonadas. De tão ruins, os equipamentos de projeção já não apresentavam condições mínimas de exibição dos filmes e as poltronas, antigas e desatualizadas, representavam pequenos exercícios de tortura para a coluna vertebral do espectador. Para falar a verdade, a desativação dos Largo do Machado não tem sequer um grande impacto sobre a economia da atividade cinematográfica.
Esse é o ponto: o desaparecimento de salas decadentes já não tem influência sobre o mercado de cinema. O problema é que elas têm um efeito devastador sobre o que acontece à sua volta. O fim dos Largo do Machado, por exemplo, representa o início do fim da galeria que os abrigava - de suas lojas e das lanchonetes que faziam o povo circular em volta - e um passo gigantesco para a degradação de todo o Largo do Machado, que já foi uma das regiões mais nobres e agradáveis da cidade.
Essa é peculiaridade da equação: o desaparecimento dos cinemas de rua é provocado essencialmente pela degradação das áreas urbanas - e acabam acelerando exponencialmente essa degradação. Por extensão, a manutenção desses cinemas é um eficiente mecanismo para retardar o esfacelamento de regiões inteiras e da qualidade de vida das populações locais.
Como resolver este problema? Impedir que os donos de cinema possam dispor livremente de seus negócios é o pior dos caminhos, porque pune justamente quem deveria estar sendo protegido. Deixar que o mercado resolva a questão é virar as costas, levianamente, para a obrigação do Estado de zelar pelo espaço público.
Ao contrário do que muitos pensam, o desaparecimento dos cinemas de rua não é um fenômeno universal. Estas salas, reformadas, ampliadas, estão saudáveis e em crescimento em algumas das mais importantes metrópoles do mundo. Estão firmes em Nova York, Paris e Londres. Continuam se multiplicando e em torno delas florescem os baleiros e o movimento de rua que anima e humaniza as cidades. A segregação das salas de cinema a espaços fechados e hiperprotegidos é um fenômeno brasileiro, acompanhando o auto-enclausuramento da população, que põe grades em suas portas e refugia-se em condomínios que pretende ''seguros''.
Descartar os espaços que são do povo é abrir mão do direito de viver com qualidade. Cada vez que um templo do cinema é entregue de mão beijada a uma instância de comércio religioso, estamos destruindo um espaço de lazer construido ao longo de muitos anos; nos trancafiando em mesquinha covardia, de frente a um aparelho de TV; trocando o saudável convívio dos semelhantes pelo esquizofrênico diálogo com a vulgaridade e com instâncias do popularesco que afrontam nossa dignidade.
Fechamos nossos cinemas de rua e entregamos nossas ruas ao apetite dos bandidos e afins. O cinema, este se muda para os casulos que erguemos para nos proteger, longe do mundo real, longe dos sinais de vida. Quem está perdendo não são os cinemas. Quem está perdendo somos nós.