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O estímulo da tecnologia

Além de indicar os rumos políticos do país, as eleições tiveram um corolário bastante útil ao indicar também algumas diferenças essenciais entre as mídia, sugerindo de que maneira cada uma delas pode ser proveitosa.

Quem quisesse saber a marcha das apurações, por exemplo, tinha de recorrer à internet. Até a televisão se pautou nela. Foi pela internet - e só por ela - que o eleitor pôde tomar conhecimento, quase minuto a minuto, de como andava a marcha das apurações .

Os que inadvertidamente procuraram se informar do andamento através dos jornais acabaram necessariamente mal informados, não importa o jornal que procurassem - não por culpa de qualquer um deles, mas pela natureza do veículo.

Em compensação, foi pelos jornais que o eleitor teve análises mais abrangentes do que se passava e está se passando no Brasil - assim como foi pela TV que ele viu o grande show das eleições. Cada mídia no seu lugar, oferecendo aquilo que ela é competente para fazer e ocupando espaços complementares.

Se isso parece nítido hoje, não o era há bem pouco tempo - nas últimas eleições presidenciais, por exemplo. Há apenas quatro anos, a internet ainda acreditava ser uma revista eletrônica e se comportava como tal, importando modelos editoriais de publicações bem feitas, mas sem nada em comum com esse meio. O eleitor, por sua vez, ainda acreditava que os jornais pudessem ser os instrumentos primários para lhe dar informações atualizadas sobre os resultados das eleições - o que na verdade só acontecia na época da contagem manual de votos e do escrutínio localizado.

Choques distintos, porém análogos, deram-se também na hora da votação. Muitas seções continuaram votando pela noite adentro pelo simples fato de que milhares de eleitores tiveram dificuldade de se relacionar com a novidade das urnas eletrônicas - levando até 15 minutos diante do pequeno teclado.

O eleitor que não conseguia digitar, o cidadão que buscava informações de uma natureza em veículos de outra e os jornalistas que acreditavam inutilmente poder transgredir a natureza do veículo foram vítimas do mesmo mal - a inadaptação às exigências da evolução tecnológica. Em conseqüência, o voto que deveria ter sido rápido ficou mais lento; as informações que poderiam ser obtidas facilmente ficaram disponíveis em vão; e veículos confiáveis pareceram levianos.

O notável é que essa revolução não é espasmódica, mas regular como o movimento das marés. O que acontecia há quatro anos com a internet vai acontecer dentro de dois com a TV digital. Muitos vão acreditar que estão diante de uma televisão aprimorada, como uma revista capaz de aparecer num computador. Levará algum tempo para que percebam o erro - e entendam que estão de frente para uma nova mídia, poderosa, diferente das demais e irredutível a qualquer outro meio, como a internet acaba de lembrar sobre o seu papel.

Essa é uma questão de implicações sociais, mas de natureza cultural. A produção de tecnologia antecede o conhecimento de sua aplicação, e é só através do preparo para os estímulos tecnológicos que podemos usufruir de seus benefícios e manter patamares essenciais de conhecimento. O certo é que não podemos nos dar ao luxo de ficar à margem do que a tecnologia nos está oferecendo - e acabar perdidos, sem saber digitar em todas as urnas que temos pela frente.

[08/OUT/2002]

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