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Estadão, no dia 28: ''Ibope do SBT coloca em xeque audiência da Globo''. A matéria é sobre a estréia de um novo sistema de medição de audiência que apontou algumas diferenças em relação ao que é aferido pelo Ibope mas logo deixou de funcionar. No mesmo dia, a
Folha registrava: ''A Band comemora que sua apresentadora Márcia Goldsmith venceu Wagner Montes em audiência''.
O importante da reportagem do Estado de S. Paulo não estava no lead, mas no que vinha mais abaixo, o registro da média de audiência de todas as redes abertas de televisão. As diferenças entre os dois institutos não são relevantes. No horário nobre, os patamares, em números redondos, são os seguintes: Globo, 30 pontos; SBT, 12; Record, 5; Band, 3,5; Rede TV!, 3; Cultura, 1.
À exceção de Globo e SBT, portanto, todas as redes brasileiras têm menos de 5 pontos de audiência no horário nobre. Mais cedo é bem pior. Entre sete da manhã e meio-dia, por exemplo, a Globo tem 8 pontos e o SBT, 7. Em seguida vêm a Record, com 2, Cultura, com 1, Band, com 0,5, e Rede TV, com 0,4.
Juntando o texto do Estado com a nota da Folha, é difícil entender o que existe para comemorar. O brasileiro recebe hoje uma das piores televisões do mundo no que diz respeito à qualidade. Existe a crença generalizada de que na televisão maciça, genérica, é assim mesmo que deve ser: quanto pior, melhor, para atingir o maior número de espectadores, afinados pelo mínimo denominador comum.
Mas não há nada de maciço quando se está disputando 1 ou 2% do mercado. Quando esses números são 20 vezes maiores, entende-se, ainda que não se justifique, que se relute em melhorar a qualidade da programação, com o risco de perda de 2 ou 3 pontos na audiência medida quantitativamente. Quem está na retaguarda, no entanto, goza da relativa vantagem de não enfrentar risco algum. Com o devido respeito, não sobram razões visíveis para que se tenha Wagner Montes ou Márcia Goldsmith como padrões de excelência. Muito menos para que se insista no imitativo, vulgar e banal, que não está sendo capaz de conquistar nem 5% do mercado.
A razão poderia estar na falta de produto de boa qualidade disponível. E é aqui que essa relação se torna mais irônica. O Brasil tem hoje uma das maiores e melhores produções espontâneas de audiovisual do mundo. Uma produção que depende das leis de incentivo fiscal para existir - e da disposição das empresas para aplicar ali o seu imposto de renda. Da produção terceirizada, nada se sabe, porque não é acionada. O que se sabe é que um produto televisivo de qualidade não tem a menor chance de ficar abaixo das minguadas fatias de público que o mercado está reservando a quatro entre seis redes (a audiência da CNT nem é aferida em São Paulo e ficará abaixo da última, com médias inferiores a 1%).
Se esse produto for focado, então, sua abrangência será ainda bem maior - e com ela seu resultado comercial. Focar, nesse caso, significa adequar o produto às políticas de programação das emissoras. E, quem sabe, dar uma ajudazinha a essas políticas. Ao manter ícones como os que estamos vendo e patinar em fatias insignificantes do mercado, parece bastante claro que elas não estão dando certo. Que argumentos, enfim, poderiam clarificar isso ainda mais? Fazemos uma das piores televisões do mundo; somos comercialmente malsucedidos nisso; e temos medo de mudar para melhor. Medo de quê? A resposta é simples: medo de que a televisão fique melhor.