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Rubem Braga aos 90 anos

Há exatamente 10 anos morria Rubem Braga, o sólido, solitário e casmurro capitão de Ipanema, o cantor melancólico de Cachoeiro de Itapemirim, o sabiá da crônica. Desde moço autoproclamado o velho Braga e, imitando Villon, envelhecido, envilecido. No dia de sua morte, escrevi:

Conheci Rubem Braga a vida inteira. Li Rubem Braga a vida inteira. Foi, sem dúvida, o ser humano que mais admirei a vida inteira. Ontem, quando vinha de carro pra cá, pro meu estúdio, parado no sinal da Praça General Osório, olhei, como todos os dias, pras janelas do seu terraço cheio de árvores. Sua cobertura agrária, lá no alto, pregada ao morro do Cantagalo. Ao contrário de todos os dias, as janelas estavam fechadas. Pra ele, pra mim, pra sempre. Nunca mais voltaremos lá.

A última vez que vi Rubem Braga

''Esta foi a última vez que vi Rubem Braga. Explico: eu tenho um estúdio de trabalho num extremo da Praça General Osório (Gosório) em Ipanema. Rubem Braga mora num edifício no outro extremo. Meu estúdio é pequeno, uma cobertura composta apenas de uma sala de cem metros quadrados, jardins, 8 quartos, três banheiros, instalações para a criadagem e dependências de hóspedes. Já a cobertura de Rubem Braga, embora não seja também uma residência de luxo, além de instalações mais ou menos semelhantes às minhas, tem ainda um viveiro para mil e quinhentos pássaros (entre os quais um sabia-quincas, raríssimo, e uma águia do nordeste, única), horta, jardins e uma plantação de cana de dar inveja a Fidel Castro. Rubem tem mais um solário para as moças, uma pequena piscina (não chega a ser olímpica mas o técnico Feola de vez em quando treina lá .) e um play-ground para crianças (onde ele prende todas as dos vizinhos, quando estão enchendo).

Depois de descritas as duas moradias com o fito modesto e visível de enfurecer o proletariado intelectual de Ipanema, passo ao histórico de minhas relações de vizinhança com Rubem Braga. Quando eu fui trabalhar num extremo da praça ele já morava no outro. Ipanema era aprazível, tinha um gabarito de quatro andares (seis com pilotis e coberturas) e os edifícios do Rubem e o meu, por sua localização especial, eram dos pouco mais elevados. Do meu eu avistava Ipanema e o mundo. Inclusive a Lagoa Rodrigo de Freitas, o mar, o Corcovado e o Pão de Açúcar e, um pouco mais longe, Paris e Nova York. O Rubem, do seu, dominava urbe et orbe e, mais importante do que tudo, me via! Todas as manhãs nos saudávamos, efusivamente. A distância não permitia troca de palavras mas trocávamos sinais semafóricos, nos quais, diga-se de passagem, Rubem é um mestre. ''B-o-m-d-i-a!'', sinalizava eu com esforço, já que meu semaforismo é fraco. ''B/o/m/ d/i/a/ m/e/u/ c/a/r/o/ c/o/l/e/g/a/ d/e/ p/r/a/ç/a /e /d/e/ m/a/d/r/u/g/a /r/.!, respondia Rubem, muito mais ágil nos braços do que na glote e na epliglote.

E assim permanecemos anos, trocando cumprimentos fraternais e constantes. Mas o que é bom dura pouco, como dizia o outro, e veio o governo Carlos Lacerda, que aprovou a idéia de mudar o gabarito de Ipanema transformando-se o bairro numa favela igual a Copacabana. O resultado aí está. A exploração imobiliária, liberada para todas as cobiças e todas as monstruosidades arquitetônicas, começou a rodear o edifício de Rubem Braga com massas gigantescas de concreto e aço, construções as mais estranhas, sem ar nem luz - atentados que ninguém parece ver, e contra os quais, aparentemente, ninguém pode. E, pouco a pouco, Rubem Braga foi desaparecendo de minha vista, tragado pela Nova York, oculto pela Canadá, emparedado pela Sergen, sepultado pela Gomes de Almeida Fernandes. Depois de batida esta foto os operários começaram a levantar mais um andar do edifício que aparece em segundo plano. Foi a ultima vez que vi Rubem Braga''.

02. 07.71 (Tempos de Pasquim)

Quem foi Rubem Braga em 20 pequenas lições

1 - EXCEÇÃO Há mulheres tão lindas e estranhas que só acontecem pela madrugada em um grande aeroporto internacional.

2 - SILVA Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silvas somos nós. Não temos a mínima importância. /A família Silva e a família de Tal são a mesma família. / Até as mulheres que não são de família pertencem à família Silva. / Nossa família faz pedra, faz telhas, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, o tapete do circo, enche os porões dos navios, dinheiro dos bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo

3 - CALÚNIA Falar do inferno, por exemplo, é mau. Dante e outros espalharam muitas notícias falsas a respeito, e a pior delas é que para lá vão os culpados.

4 - DEFINIÇÃO Entendo por vida o fato de um homem viver fumando nos três primeiros bancos e falando ao motorneiro.

5 - ATRAÇÃO Nunca precisei usar sistematicamente o bonde Praia Vermelha, mas sempre fui simpatizante.

6 - DESENCONTRO Quando vier a grande hora do nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar café. Vamos. Vamos tornar um cafezinho.

7 - DISCUSSÃO Discutir com adjetivos é muito fácil.

8 - EGOCÊNTRICA Ligue para minha casa, pergunte se eu estou, se não estiver diga que já vou, e se estiver diga para eu não sair.

9 - ESCOLHA Devo confessar preliminarmente que, entre um conde e um passarinho, prefiro um passarinho. (Motivou o rompimento – empregado e patrão – entre Rubem e Chatô. O conde era o multimilionário Matarazzo)

10 - FRUSTRAÇÃO Não sou cangaceiro por motivos geográficos e mesmo por causa do meu reumatismo.

11 - FÉ Glória ao padeiro, que acredita no pão.

12 - INTIMIDADE A gente sempre sabe, de um casal de amigos, um pouco mais do que cada um dos membros do casal imagina.

13 - MADRUGADA PAULISTANA Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio.

14 - OUTSIDERS Eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis.

15 - POLIGLOTA Falo francês como quem cospe pedras.

16 - RISCO Sempre corro o perigo de cumprimentar efusivamente, quando encontro, de súbito, um desafeto qualquer: antes de me dar conta de quem se trata, eu o saúdo porque é uma cara conhecida.

17 - TESE Filosofar é, antes de tudo, cuspir.

18 - TENTAÇÃO Nesta varanda alta, sobre os veículos e os transeuntes matinais, tenho a vontade insensata de fazer um discurso.

19 - CONTÁGIO Devia ser com certeza uma dessas doenças que a gente adquire lendo Seleções e tem um nome tão interessante que dá vontade de mandar botar na cartão de visitas.

20 - DIPLOMACIA Tomei o partido de falar pouco, beber muito e exprimir os tradicionais laços de amizade que ligam Cachoeiro de Itapemirim à Casa Branca.

[19/JAN/2003]

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