Minha primavera é sempre. Quase sempre. Basta que a temperatura não esteja excessivamente quente, 80 graus à sombra, nem excessivamente fria, 15 abaixo de zero. O que, quase vocês todos sabem, não é o comum entre nós, entre você e eu, entre eles todos que zanzam por aí. Esses seres humanos que não sabem de onde vieram nem pra onde vão.
E ontem, ao amanhecer de mais um dia, chovia. E rimava, como se vê. Fiquei olhando a beleza do cinza. Privilégio - todas as minhas janelas dão pra todos os dias. Portanto não preciso me candidatar a nada do bem público pra aumentar meus bens particulares porque o meio ambiente é meu, e vivo nele todo. Ver é um milagre. E andar sobre o que se vê, entre o que se vê, milagre maior.
Pois a chuva parou. O céu está coberto de nuvens cinza-bem-escuro, com muitas nuvens, por contraste, mais brancas do que tudo que já foi branco no mundo, e algumas pinceladas azuis saídas não sei donde. E desço à praia onde o céu já deixa coar nesgas de sol. O diálogo de beleza é só entre eu e Deus - que aliás não existe mas está sempre presente, se é que me entendem - pois a classe média não está nessa. Ainda nem espreguiça a essa hora.
E ando e espero, e espero e ando. Uma estria de sol, redonda como um tamanco, ilumina todo, e só, o Vidigal. E o Vidigal nunca foi tão lindo. Logo apaga, e tudo escurece. Mas outro raio, mais fino, evidentemente orientado pela técnica do Maneco Quinderê e pelos 50 anos luz de Edgar Moura, que se vivesse no século XVIII seria o rei dos iluministas, dá uma lambida carinhosa na pirambeira mais alta do morro e emoldura os oitenta metros do folly art-noveau do Técio Lins e Silva pendurado na beira do abismo. Apaga. Acende um raio apenas no cabeço, na cabeça, de um dois Dois Irmãos, o da esquerda, o Chico Caruso.
E ando e paro e paro e ando, e ando e paro. E espero. Mas Godô, que no meu caso se chama Arco-íris, hoje não vem.
Já é querer demais, Millôr.
Senta e escreve isso.