Coisas da Política
Infidelidade ao alcance de todos

Informe JB
Em campo

Cartas
Protocolo

Horóscopo

Eugênio Bucci
Cidade de Deus (e do mercado)

Millôr Fernandes

Gente
Estilo de vida

Charge Online

Márcia Peltier
Equimoses

Thomaz Koch
Guga está melhorando

Augusto Nunes
Um debate só para três

Nas Páginas da História
5 de setembro no JB

Informe Econômico
Degelo lento e gradual

Boechat
Vigília aérea

Fernandão
Liberou geral fora da quadra









Minha primavera é sempre. Quase sempre. Basta que a temperatura não esteja excessivamente quente, 80 graus à sombra, nem excessivamente fria, 15 abaixo de zero. O que, quase vocês todos sabem, não é o comum entre nós, entre você e eu, entre eles todos que zanzam por aí. Esses seres humanos que não sabem de onde vieram nem pra onde vão. Millôr

E ontem, ao amanhecer de mais um dia, chovia. E rimava, como se vê. Fiquei olhando a beleza do cinza. Privilégio - todas as minhas janelas dão pra todos os dias. Portanto não preciso me candidatar a nada do bem público pra aumentar meus bens particulares porque o meio ambiente é meu, e vivo nele todo. Ver é um milagre. E andar sobre o que se vê, entre o que se vê, milagre maior.

Pois a chuva parou. O céu está coberto de nuvens cinza-bem-escuro, com muitas nuvens, por contraste, mais brancas do que tudo que já foi branco no mundo, e algumas pinceladas azuis saídas não sei donde. E desço à praia onde o céu já deixa coar nesgas de sol. O diálogo de beleza é só entre eu e Deus - que aliás não existe mas está sempre presente, se é que me entendem - pois a classe média não está nessa. Ainda nem espreguiça a essa hora.

Millôr E ando e espero, e espero e ando. Uma estria de sol, redonda como um tamanco, ilumina todo, e só, o Vidigal. E o Vidigal nunca foi tão lindo. Logo apaga, e tudo escurece. Mas outro raio, mais fino, evidentemente orientado pela técnica do Maneco Quinderê e pelos 50 anos luz de Edgar Moura, que se vivesse no século XVIII seria o rei dos iluministas, dá uma lambida carinhosa na pirambeira mais alta do morro e emoldura os oitenta metros do folly art-noveau do Técio Lins e Silva pendurado na beira do abismo. Apaga. Acende um raio apenas no cabeço, na cabeça, de um dois Dois Irmãos, o da esquerda, o Chico Caruso.

E ando e paro e paro e ando, e ando e paro. E espero. Mas Godô, que no meu caso se chama Arco-íris, hoje não vem.

Já é querer demais, Millôr.

Senta e escreve isso.

[05/SET/2002]

   Home > colunas > millor
Primeira Página