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A CRASE II

Millôr Vamos continuar, Sérgio Língua Viva Rodrigues. Você se estendeu bem, e com lídima elegância, sobre a crase em português do Brasil. E até fez uma ref(v)erência, comparando-me capilarmente a você: ''O Millôr já está careca de saber tudo isso, pois careca eu também estou''.

Reparo: minha careca é de ignorar. E não tem a antecipação da sua. Até já lamentei:

''A triste certeza

De que hoje estou de posse

É que a minha calvície

Nem ao menos é precoce''.

Você diz que ''o problema (da crase) deixa a gramática pra trás e vai bater... naquela região onde mora o espírito da língua''.

Mais longe, Sérgio, vai à metafísica. De passagem lambe a sociologia. Se 80 milhões de brasileiros alfabetizados erram na identificação de uma regrinha de merda, quem está errado, o brasileiro ou a regra?

Em Portugal, até onde vai o meu ouvido, não se erra, ou se erra pouco, na identificação da crase, porque existe um som (quase que só psicológico) remanescente. Alguns ainda reconhecem um átimo, um átomo, um Fermi de som restante.

Aqui já vi até placas, inscrições em mármore em edifico de Ministério, com três crases erradas. Vi também, por acaso esta semana mesmo, manual de regras de editora importante, para professores, e feito por professor, com 27 páginas contendo 32 preposições craseadas - todas erradamente.!!!

E é comum ver em obras públicas - municipais, estaduais, federais, oficiais, portanto - indicações métricas com crases salpicadas à la carte.

Já recomendei, pro caso, craseamento simples a ser oficializado: até 200 metros não se usa crase, dos 200 aos 400, usa (à 200 metros, à 300 metros, à 400 metros). Daí em diante, salteia - à 500, sim, à 600, não, à 700, sim. Sencillo, no, mamita?

Seu fino artigo afinal concorda comigo em fina imagem: ''E se for este o futuro da crase entre nós, declarar sua independência do artigo para se transformar numa espécie de preposição invocadinha, uma preposição de boné virado?''

O fato é que, Sérgio, essa tolice gramatical atrapalha meio mundo, faz alunos brilhantes terem notas baixas em ''português'', ruboriza inúmeros sábios.

Por isso Ferreira Gular sintetizou em frase genial: ''A crase não foi feita pra humilhar ninguém''.

O poeta sabe que humilha - e como! - todo mundo.

[16/AGO/2002]

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