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DRUMMOND, sempre.

Artigo publicado quando Drummond fez 80 anos e que reproduzo agora quando ele (não) faz 100

Quando Carlos nasceu, um anjo disse ''Vai, Drummond, ser gauche na vida'', pois cada país tem o Rosebud que merece. Por isso, gauche num país de ambidextros, ele se aprimorou até ambisinistro. Ao embarcar, porém, não exigiu idaevolta: já sabia que a vida é sem retorno. E o mundo, porta giratória. De uma família de faiscadores de ouro e fazendeiros de criação, herdou apenas o brilho das pepitas. E, quando lhe falam em (agri)cultura, ele puxa logo a sua enxada. Diplomado em farmácia, preferiu a poesia, outra forma de cura, forma maior de alquimia. Mineiro e poeta, tem sempre aquele ar de quem compra queijo de Minas em Amsterdam. Macunaíma das quantas nega Mário de Andrade, mostrando à repartição pública que o (anti) herói tem todos os caracteres.

Pois, pertencente a uma vasta tradição de funcionários públicos e notórios, conhece bem com quantos processos se faz uma pessoa. Mineiro e burocrata, acredita piamente na autoridade constituída. Desde que lhe mostrem a Constituição. Sua visão da infância é pular carniça, gritar mamãe posso ir?, e não correr pro pique. Lento repentista, disfarça sua agilidade num passo contido, pra ninguém perceber seu lado maratona. Atilado, onde ele passa não cresce a grama: mas o asfalto se abre para a flor sem canteiro. Em 1934 se mudou definitivamente pro Rio, antiga cidade brasileira hoje desaparecida. Maior humorista, consegue a síntese da análise, espécie de dialética sem pergunta nem resposta. Pensa no pensamento o tempo todo, só fala em linguagem, usa gíria sem o menor sotaque, viaja sempre no estribo e acha a vida um trem danado. Ao sair, porém, fecha todas as janelas, trancando as correntes de ar dentro de casa.

Tem um olho terno e arisco pra assim chamada juventude, pois nunca ninguém foi mais jovem que ele. Quer dizer, há tanto tempo. Churchill, se o conhecesse, diria que é um enigma envolto num mistério embrulhado num criptograma. E, se se chamasse Raimundo, seria uma rima-anagrama pois Drummond já contém o (vasto) mundo. Mas à hora em que todos os bares se fecham ele é tão citado quanto a Bíblia, o citado poeta. Magro, mais magro por dentro, escondido atrás das paralelas, só se encontra no infinito. Crê em amizades profundas e inimigos bem rasos. Anda sempre de óculos; pra nada lhe escapar ao longe. Donde o calidoscópio. Mal fisionomista, poucos o reconhecem, embora todos o saibam homem muito reconhecido. Escapou por um triz e jamais esqueceu que nada fica. Foi político militante durante pouco tempo pois decididamente seu forte não é militar. Rápido no gatilho, é incapaz de matar uma mosca. Casado, pai de filha, viajou a Buenos Aires uma vez pra ver os netos e constatar para sempre que o mundo é só ponto de vista.

Desconfia das convicções, rói o pecado, mas, mesmo quando peca por base, não se baseia na desconfiança. Porém, se alguém fala em mulher no andar de cima, ele cala e consente. Nem sempre pode, mas, antes de poder, já era. Em certas tardes de sol, um brilho em seu olhar mostra visivelmente que entre Itabira, Belô e Rio muitos anos se passaram. Nem amigo nem inimigo da tecnologia vai quase sempre a pé. Mas jamais seria o que é sem Gutenberg e dizem que Graham Bell inventou pensando nele. Não sei se bebe ou se fuma mas inda outro dia recusou o prêmio, por achar que era de grego, i.e., não quis entrar no cavalo de Tróia nem como observador. Vive o que pode, o que deixam e o que inventa. E, quando terminam as vinte e quatro horas, ainda vive um bocadinho mais, nesse espaço entre o ido e o que virá, dito premonição. Pois crê no tempo e um só seu filho, o hoje-em-dia, o qual foi concebido por obra e graça de tudo que existiu. Ainda ri muito; nas janelas da rua Lafaiete só dói quando Itabira. Amanhã recomeça.

[31/MAR/2002]

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