Cláudio Rocha e Tony de Marco me mandaram o primeiro número de sua revista
Tupigrafia, um prazer estético pra quem aprecia letras, gutenbergues, tipos móveis e imóveis, esse gigantesco arsenal que transformou o troglodita num ser-de-ponta (existe!), desde que um analfabeto de gênio inventou o alfabeto.
Entusiasmado com a Tupigrafia escrevi aos meninos - os dois juntos não têm 70 anos:
''Admirável o trabalho de vocês, essa Tupigrafia. Recebi, vi tudo e li tudo. Nada que não seja emocionante. Vou deixar de trabalhar, se é isso que vocês querem, me mandando tanto talento junto. PS. Mando minha sensação em cursivo, porque é assim que os educados fazem. Nada de eletrônica. Com enorme abraço boquiaberto, M.''
Tupigrafia, apenas 25X20, aberta a todas as criatividades e confusões gráficas sem em nenhum momento perder o sentido da legibilidade. Vale comparar esse enfoque, filosófico, por assim dizer, com o desastroso projeto, se é que jamais houve algum, da revista Bundas, que enterrou a revista junto com todos seus tantos outros erros.
Agora, quase um ano depois, Cláudio e Tony, ligados a uma turma que sabe do que está falando, lançam o segundo número de Tupigrafia. Vê-se logo - a revista não só é sem fins lucrativos como vai mais longe - tem visíveis intuitos de prejuízo. Em país civilizado os gajos teriam conseguido um grant para aprofundar o seu projeto, mas acho que cá entre nós as faculdades, setores culturais de bancos, grandes empresas e petrobrases devem mesmo se recusar a apoiar esse tipo de gente. É evidente que vieram ao mundo pra sofrer. Enquanto isso, porém, nos apresentam os grafites de variados muros (*), Steinberg, Cummings, Damiani, Ferlauto, o profeta Gentileza, Klee, Glaser, caligrafia chinesa e quantas mais pretensões tipográficas houver no mundo.
Filosofia, por exemplo:
''Sem crise. Como um DJ que altera, mistura, recorta e cola as músicas para transformá-las em algo novo nas pistas, o tipógrafo não pode ter medo da comparação. Se para alguns o original ainda é melhor (...) não tem problema. Isso sempre vai acontecer e não deve inibir nossa vontade de desafiar os monstros sagrados e pichar seus monumentos (...). Essa idéia não é nova, poucas são. Mas a atitude precisa ser assumida com orgulho.'' Tony de Marco
''As imagens, textos e objetos esparsos fazem parte do cenário urbano, como o graffiti, os cartazes lambe-lambe (...). Alguns elementos bastante familiares da iconografia urbana, que somem rapidamente ou se anulam nos excessos das grandes cidades, puderam ser vistos em detalhes. (...) Camadas superpostas, mistura de materiais corriqueiros, ironia e piadas criaram o estranhamento necessário para o observador descobrir nuances impossíveis de serem percebidas à distância e também bisbilhotar em um espaço onde o valor da mensagem não se restringia apenas ao seu conteúdo''. Cláudio Rocha
Claúdio e Tony se apresentam orgulhosamente - não sem retro ironia - como tipógrafos.
Honrosamente me escolheram para homenagem, transformando minha letra de projeção maluca, a persplexctiva (perplexa+perspectiva) numa fonte de computador. Valeu!
(*) Norman Mailer escreveu um pequeno ensaio (com fotos não me lembro de quem), sobre a experiência dos garotos marginais que de madrugada arriscavam a prisão e a vida pra riscarem a carcaça dos trens em Nova York. O livro tem um belo título, As my name goes by - Vendo meu nome passar. Essa é a glória. Que não fica.