|
Minha espada romana
É uma coisinha à-toa, me diz o amigo. Gelei. Coisinha à-toa costuma ser sinônimo de confusão. ''Como você está indo para a Itália, dá uma passadinha numa loja e me traz uma espada. Deve ter um monte em volta do Coliseu.'' Ele anda vendo muito Gladiador. Lembrei-me de Fernando Sabino, que dois meses antes de viajar já começava a andar na rua sem olhar para os lados para evitar que lhe fizessem encomendas. Evidente que não havia nenhuma loja em volta do Coliseu. Mas por acaso em Florença havia. Escolho uma réplica de uma espada romana dos tempos de Julio Cesar. Um espetáculo, a preço camarada: US$ 80. O dono da loja me explica que não haverá problema na alfândega. ''É um objeto ornamental, decorativo, sem fio. Não é arma. É catalogado como arte. Vendo muito para turista.'' Saio da loja e a espada, pesada, teima em cair no chão. Pior foi no trem. Ela não cabia no bagageiro e ficava com um pedaço pendurado para fora. A cada balançada do vagão eu via as manchetes: ''Espada tomba e mata velhinha.'' Óbvio que o embrulho também não coube na mala. No aeroporto, mais problemas. Cada vez que eu virava o carrinho, ela atingia a canela de alguém. Na hora do embarque para o Rio, me avisam que ela não pode subir a bordo comigo. Quase perco o vôo tentando despachar. Já no avião, preencho o papel da alfândega. Leio a pergunta: você está trazendo alguma arma? As palavras do vendedor vêm à memória: ''É arte.'' O avião pousa e bate aquele pensamento recorrente em qualquer viagem: será que minha bagagem vai se extraviar? Extraviou. Todo mundo recolheu a sua, menos eu. A companhia aérea pede que eu preencha uma papelada e me tranqüiliza: ela vai aparecer em breve. Alguns dias depois, eu no jornal, me telefonam de casa com a boa notícia: a espada chegou. É um objeto vistoso e reluzente, parece saído daqueles filmes de Highlander. Só tem um probleminha: não tem nada a ver com a minha espada romana. Ligo para a companhia e uma mocinha simpática se assusta: ''Isso nunca aconteceu antes! Se é raro perder uma espada, imagina duas!'' Significa que há outro maluco procurando uma espada por aí. Um funcionário vai lá em casa, pega-a de volta e avisa que vou receber uma indenização de US$ 60. Minha espada? A esta altura deve estar enfeitando a parede de algum ladrão.
Conto a história da espada para uma conhecida e ela lembra o caso de um amigo irlandês. Ele veio ao Brasil e logo prepararam um churrasco de boas-vindas. O homem ficou maravilhado com aquela fartura, nunca tinha visto nada igual. Morador de Barcelona, resolveu que na volta ia apresentar os amigos ao churrasco. Levou na bagagem cachaça, sal grosso e vários espetos. Na chegada à Espanha, foi cercado pelos policiais e levado para interrogatório. Desconfiaram que fosse terrorista. Apavorado, ele explicou que no Brasil é assim, eles pegam um pedaço de carne, enfiam no espeto, jogam sal e põem no fogo. Demorou quatro horas para acreditarem e libertá-lo.
O dedo passeia pelo controle remoto e os canais vão mudando com rapidez. Paro no Show do Milhão. A pergunta é: ''Quantos anéis tem o planeta Júpiter: nenhum, 1, 2 ou 3?''. Esta é fácil. Quem tem anel é Saturno, Júpiter não tem nenhum. O candidato resolve arriscar. Se acertar, ganha R$ 300 mil. Ele responde 3. Errou. Eu também. Segundo a produção de Silvio Santos, Júpiter tem dois anéis. O sujeito é desclassificado e só leva para casa R$ 100 mil. Tudo estaria encerrado se um telespectador não tivesse achado estranha a resposta. O carioca Guilherme Pereira, um estudioso do assunto, resolveu pesquisar no site da Nasa. Lá encontrou: Júpiter tem três anéis. Um deles, mais diáfano, pode ser considerado como dois anéis inter-relacionados. Ele também confirmou a resposta na revista National Geographic. Guilherme alertou o programa e foi avisado de que o assunto estava sendo investigado. Já se passaram mais de três meses e nada. Ele pede que eu fale do tema. Procuro o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, a maior referência brasileira no assunto. Ele me ouve, diz que em seu Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica está escrito ''dois anéis, com quatro componentes'', mas avisa que vai pesquisar. Explica que seu livro é de 1995, de lá para cá muita coisa mudou, toda hora surgem novas descobertas. No dia seguinte, nos falamos. Diz o mestre: ''Hoje em dia se sabe que há o anel de Halo, o Principal e o de Gaze, muito tênue, que pode ser dividido em duas partes.'' Resposta: 3 ou 4. Guilherme estava coberto de razão: garfaram o candidato em R$ 200 mil.
Em matéria de plástico de carro, há de tudo, como escrevi aqui semana passada. Dia desses, um adesivo dizia: ''Quero distância de carro cafona'', seguido pela propaganda: ''Cunha, personal car.'' Pelo que entendi, o sujeito ganha a vida como decorador de automóvel. Há pouco tempo, uma kombi trazia a inscrição: ''Buzine se você ama Jesus!''. Pelo visto a idéia é promover um buzinaço. Outra kombi exibia um imenso adesivo no vidro traseiro: ''Deus é fiel.'' Ao lado, havia o desenho de uma mulher nua levando um senhor amasso de um garotão. O brasileiro é mesmo mestre em conciliar sagrado e profano. Como mostra a revista Domingo, na casa de Luma de Oliveira uma Bíblia aberta repousa ao lado de um pôster enorme que reproduz a modelo nua na Playboy. Há casos bem mais dramáticos. O ladrão entrou no apartamento na Lagoa, amarrou o casal no banheiro e avisou que o bebê teria um fim trágico se eles não cooperassem. O tempo todo alternava as ameaças com frases supostamente confortadoras, como ''Jesus te ama'', ''Jesus salva''. Acendia uma vela para Deus e outra para o diabo.
Após o jantar, peço ao garçom um café carioca, uma das especialidades do restaurante. Ele diz que acabou. Como era de graça, o dono cortou e manteve o expresso, que é pago. O garçom explica: ''Culpa do racionamento.'' Pelo visto, a crise energética vai virar desculpa para tudo. Há coisas que pertencem ao passado, como escada rolante para descer e banco 24 horas (agora dura 16). Já tem gente aproveitando festa na casa dos outros para recarregar o celular. A orla do Rio está à meia-luz: a prefeitura mandou desligar metade das lâmpadas. Em toda a Praia de Ipanema e Leblon, só um trecho escapa ao semi-apagão: o Baixo Bebê. Lá, dois potentes refletores iluminam o nada. Ou melhor: jogam luz sobre uma coleção de brinquedos vazios - não vi nenhuma criança às 11 da noite. Mas há um lado bom: o racionamento escureceu o obelisco de Ipanema e a Estátua da Liberdade da Barra. Recebi o aviso da Light informando minha meta de consumo. Levei um susto, como todo mundo, tanto que tenho evitado acender as luzes de casa. Já coleciono uma canela roxa, um hematoma no braço, um dedo do pé arruinado, um copo quebrado e uma dúzia de xingamentos.
|