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Deserdar um filho não é tão simples como pensam

Massimo Manzolillo
Vernáculo

Giro
Casa Cor Rio 2005

 


Vernáculo


Tem certas palavras que parecem não mais que uma fila indiana de sílabas. Um pequeno amontoado de letras que não traduz o que quer dizer. Algumas até assumem o aspecto de migrantes ilegais, invadindo as fronteiras da língua sem função ou razão de ser. Tomam posse de um lugarzinho no dicionário e, em pouco tempo, ganham a legalidade na forma de um vernáculo. Nunca fomos tão permissivos.

O que dizer de termos como menarca? Como explicar a uma filha, no esplendor da pré-adolescência, que enfim ela chegou. ''Nossa, pai, como é que você não me avisa? Nem me arrumei direito. Há tempos não vejo tia Menarca''. Torça para que a confusão seja íntima, no ambiente familiar. Sempre existe a possibilidade de extrapolar os limites de um pedagógico debate entre pais e filhos.

Imagine um constrangimento em plena Discoteca 2001. Você ali, garimpando uma promoção em uma daquelas sortidas bancas de R$ 9,90 - uma perda de tempo absoluta -, e sua filha, dedilhando cada CD exposto, chegando à inevitável dúvida. ''Pai, você sabe se chegou o novo da banda Menarca?'' Nesse momento, não se exaspere. A ansiedade natural dos 13, 14 anos, pode provocar arrepios desse porte.

Compre logo uma coletânea da Metallica e saia para uma conversa mais em particular com a garota. Se o problema é o vernáculo, tenha sempre uma resposta - e uma justificativa - na ponta da língua. Coloque a culpa no Aurélio, no Houaiss. Em alguma dessas sumidades que têm histórico para assumir uma responsabilidade pelo lado exótico do que falamos ou escrevemos.

Como terapia, você pode até mergulhar em aulas de inglês, francês, italiano. Mas tenha sempre a certeza que vai ter de viver resignado com os contratempos do português. Não apenas pelos exageros de algumas palavras como também pela inibição de outras que se apresentam tímidas para revelar o que queremos. Não imagino que meus desejos inconfessos estejam limitados, por exemplo, à expressão fetiche.

Nem me venha com diplomacia para dizer que um estrangeiro metido a besta, repleto de empáfia e pedante como esse tem a capacidade de definir pecados escondidos no labirinto de uma alma tropical. E nas curvas da carne tupiniquim. Repare que os podófilos precisam mais que isso para sugerir subserviência total aos pés de uma Gisele Bündchen, aos dedinhos de uma Luma. Fetiche parece muito anêmico para esse tipo de adoração.

Digamos que não irriga a imaginação. Precisaríamos criar algo nosso, mais libidinoso talvez. Entendo, apesar de tudo, que temos outros casos prementes, que necessitam de intervenção urgente. Imagine a dificuldade de um professor, em um ambiente escolar repleto de dúvidas e testosterona, no sinuoso percurso de uma aula de educação sexual. Não é fácil manter a seriedade e motivação da turma depois de um enunciado repleto de genitália, vagina e pênis.

Sinceramente, pelo prazer que nos permitem, acho que eles mereciam batismos mais justos. Em casa, então, penso que poderia haver uma comunicação menos conflituosa. Como no caso de um amigo meu, o Marco Túlio, que enfrentou um diálogo complexo com o filho de seis anos. ''Pai, dei um murro hoje no Betão. Ah, ele disse que eu tinha vindo de uma vagina. Falei que era a mãe dele e meti o soco''. Foi duro explicar, ainda mais que o menino nasceu de cesariana - essa é outra palavrinha que causa urticária.

Enfim, imagino a decepção de uma adolescente, embebida em sonhos pueris, ainda absorta no mundo de Poliana, ao ouvir do professor que o mundo adulto é um universo de lascívia, genitália, cópula e pênis. Nada menos cor-de-rosa. Não seria de estranhar que elas voltassem para casa e arrancassem o pôster do Felipe Dylon da porta do armário. ''Que nojo!'' Isso faz lembrar da minha própria adolescência, quando nos folhetins da Playboy e da Status buscávamos ser mais do que éramos.

Recordo até de uma edição que se prometia picante, com textos reveladores na seção Fórum. Anunciava-se um verdadeiro manual de posições, do Oriente ao Ocidente, tudo o que era possível fazer a dois. Ou entre muitos, a critério do leitor. No meu caso, que mal largara o autorama, era só uma questão de imaginar e esperar. Mas confesso que parei no momento em que o herói ''genuflexionou'' para fazer uma de suas estripulias com a parceria.

Fiquei a imaginar como o sujeito seria capaz de manter o desejo, a chama. A ereção, propriamente dita. Só mesmo sendo brasileiro, que não desiste nunca, para continuar em riste depois de genuflexionar diante de uma mulher. A partir daí, diante do risco de embolar a língua e dar um nó nas cordas vocais, aprendi que o melhor é evitar que a cantada se torne uma aula de gramática. Na dúvida, sugiro, opte pelos apelidos. E como essas coisas da vida mundana têm apelidos.


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[29/MAI/2005]


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