As mulheres descobriram as maravilhas do Haiti. Não exatamente nas praias degradadas pela contínua destruição, mas nas macambúzias casas onde se pratica o vodu. Acredite, depois de anos de submissão cultural, de opressão doméstica, as marchas em que queimavam sutiãs e os protestos que se tornaram leis não foram o bastante como compensação. Nem os empregos executivos, nos quais comandam centenas de homens, funcionaram como indenização extra-oficial.
Elas querem é furar os antigos ditadores do lar. O desejo é de espetá-los, lentamente, um pouco a cada dia. Ou a cada hora, depende da ansiedade e do calendário de regras menstruais. Os bonecos do vodu foram a maneira mais habilidosa e discreta de evitar o confronto direto. Permitiram, também, camuflar que eles ainda têm algum significado para elas. Torturam sem que eles percebam, enfiando agulhas em abdômens de panos como se varassem a carne de fato com adagas de crimes sutis.
Suspeito até que elas carreguem esses bonecos no porta-luvas do carro, e despejem toda a ira que o trânsito provoca no coitado que atrasa a pensão alimentícia ou no namorado frugal que desmarcou o restaurante de sexta-feira à noite. Na pior das hipóteses, vale como uma exótica terapia - para elas. Cria uma sensação de estarem praticando acupuntura com agulhas de tricô. No caso deles, funciona como uma purgação, em um esdrúxulo ritual com sotaque e ira caribenhos. Com dor, muita dor.
Mas a verdade é que, até mesmo entre a classe feminina, mesmo em meio a essa insana vingança, existem defecções. Há quem procure formas mais elaboradas de colocá-los na masmorra sem que percebam. De prendê-los no tronco sem que notem que estão sendo açoitados. De queimarem no mármore do inferno crentes que estão, apenas, com espasmos enquanto circulam pelo paraíso terreno. Ninguém me tira da cabeça que as enfermeiras desenvolveram um método muito mais preciso para dar esse troco milenar.
Com elas, não tem essa de bonequinho haitiano; vão direto na carne do sujeito, mesmo que ele não tenha nada a ver com a vida íntima de nenhuma delas. Transformam o objeto homem em pacientes e garantem a senha e o direito de assombrarem o coletivo masculino com algo que causa um eterno pavor - injeções, punções, soros, exames de sangue. Furos em profusão, por assim dizer. Enfim, somos todos frouxos, e elas, os anjos sem asas, perceberam que nos fazem o bem com essa seqüência de doloridas perfurações.
Que profunda ironia! Chegam sempre com um sorriso encantador, no canto da boca. Ampolas, êmbolos, agulhas e gaze nas mãos. E uma voz suave para anunciar a sessão de horror. ''Vamos lá, seu moço medroso!?'' Essa é a Gláucia, chefe das minhas manhãs de sofrimento e cura, na clínica em que encerrei o tratamento médico na semana passada. ''Vai dizer que doeu alguma coisa?'' Nem respondo, apenas viro o rosto para esconder a lágrima que sempre escorre a cada série de pontadas. Uma delas perfura meu peito, bem na veia subclava - é quase a dor do parto.
Na mesa do bar, à noite, os parceiros não querem saber minúcias mais dramáticas de minha via-crúcis. Pensam tão somente nos detalhes sórdidos e no eterno fetiche por enfermeiras. ''E aí, como elas são? Fala, fala. Tem alguma no meu número?'' Tem, mas eu não conto. É um desrespeito com minha pele agora semelhante a uma mangueira de irrigação. ''Não enrola, alguma é baixinha, padrão mignon?'' Tem sempre uma assim. É a Carla, com direito a piercing no nariz e estilo noite feliz. Casada, entretanto, o que não significa que tenha sido condescendente comigo. Sabe aquela coisa da maternidade? Esperava um pouco de dó e compaixão.
Que nada. Era só eu chegar e lá vinha a danada, com o carrinho cheio de ferramentas. Coisa digna de algum algoz. Respirava fundo e sempre trancava o ''ai'' no fundo da minha alma. O que nunca funcionou. No dia seguinte, ela chegava com mais ímpeto e determinação. Nos plantões de sábado, ou nas internações esporádicas, era a vez da Priscilla. Profissional de mão cheia. De agulhas também. Ligeirinha, nunca deu tempo para o meu clamor, minhas súplicas, meus pedidos enternecidos. ''Viu, já foi.'' E lá estava eu, com a face virada, escondendo o rio de lágrimas pungentes.
Um dia apareceu a Cláudia, cheia de conversa. Mas logo reparei que era apenas uma tática para relaxar o indivíduo com a cabeça na guilhotina. Tudo bem, é exagero. Mas os braços e o peito com o catéter eram sempre oferecidos em sacrifício. E ela não se fazia de rogada, aceitava com enorme prazer. Que destreza para perfurar um vodu de carne e osso! Aliás, a mesma que demonstrou ter a Nara, que voltou de licença bem a tempo de brincar comigo por duas semanas.
A verdade é que nem precisei perdoar Gláucia, Carla, Priscilla, Cláudia e Nara. Não sei se há um fundo de verdade nessa história que o ser humano gosta de sofrer, mas o fato é que desenvolvi uma paixão platônica pelos meus anjos sem asas. Afinal, as agulhas, soros e injeções foram muito mais que uma vingança milenar; me levaram de volta ao convívio e à rotina de um sujeito saudável. E estou aqui, em condições de escrever que 12 de maio foi o dia delas, das enfermeiras. E que Deus me ajude e elas não tenham se acostumado a me ver, apenas, como um boneco vodu.