Há certas diferenças entre os sexos que esvaziam qualquer passeata pela igualdade. Não me refiro a antigas bandeiras, como os sutiãs queimados em praça pública para anunciar que elas não mais aceitariam as amarras estéticas. Nesse caso, parte da Humanidade nascida mulher descobriu da pior forma os efeitos da gravidade. Bastaram alguns anos - e milhares de minutos perdidos na ante-sala de cirurgiões plásticos - para que a fragilidade da própria carne revelasse que a luta pela tal igualdade não deveria começar pelas roupas íntimas.
Tempos depois, com o filó e a renda das anáguas rasgados como o símbolo de uma revolução, elas passaram a usar a garganta profunda. Nunca se viu um grito gutural, de roucos decibéis, anunciando uma nova atitude. Elas partiram para a noite, sozinhas, empurrando para um canto do balcão os machos que antes reinavam em parceria com copos de puro malte ou conhaque. Os novos tempos pediam uma mudança de postura, e elas rumaram a uma batalha mais contemporânea. Não sem antes resgatar os sutiãs que levantaram o combalido astral, embicaram para cima a depauperada estima.
Nas últimas décadas, com exceção de algumas nítidas e biológicas diferenças, homens e mulheres conquistaram semelhanças sem a necessidade de embates culturais. Aconteceu, se é que podemos creditar essa equiparação ao destino. Não me recordo se a Bíblia fala em igualdade nesse nível - o Corão, posso me aventurar a dizer que não. Mas certamente peca aquele que acredita estar na carne a divergência entre os sexos. Há uma forma mais sutil, portanto camuflada, de perceber que eles e elas apenas brincam de ser iguais.
Não me force a convocar como reforço teórico os tratados antropológicos, até porque não há a necessidade de pressionar pelo óbvio. Vêm das cavernas, quando o homem corcunda ainda arrastava braços símios até o chão, as primeiras manifestações que alguma igualdade haveria de existir entre ele e ela, mas em escala bem menor que as diferenças. Porrete na mão, o macho era quem caçava para comer, literalmente ou biblicamente. Uma fome que ele saciava mais na quantidade que na qualidade - por isso a tese que a civilização começou com um judeu ou um turco.
A verdade é que a primeira coisa ereta no pitecantropo não foi a região lombar, o que deveras atrasou a formulação de manuais de posições eróticas e guias de lascívia. Vamos prosseguir sem divagações. O certo é que nunca houve dez mulheres para cada homem. Nem três, ou duas. Uma matemática reveladora. No máximo, havia uma cunhada dando sopa, percepção que, milênios depois, despertaria a sensação do que é bom em gênios da raça como Nelson Rodrigues - ''só conheceu o verdadeiro amor quem deitou com a cunhada''.
Já na pré-história, o macho poderoso se tornaria polígamo; a mulher, frágil e refém, se tornaria infiel. É uma questão de aritmética. Se eles querem mais, algumas delas serão de muitos - mesmo que eles finjam não saber. Eles traem, elas mentem. Ele saía para caçar um tigre; ela se deitava na pele de urso do primeiro que a encontrava livre na mata. Os condomínios e prédios residenciais de hoje tornaram mais prático e permissivo esse costume de tempos. De certa forma, até consagraram essa rotina - e o vizinho coadjuvante, por extensão.
Eis aí o grande cerne das diferenças. Esqueça Freud e o desejo delas de possuírem um pênis. Nem dê ouvidos aos que pregam a razão como forma de as mulheres superarem os homens. Nada vai mudar! Elas não podem viver sem mentir, eles não sobrevivem sem trair. É uma questão antropológica. Em hipótese alguma renda-se aos dogmas religiosos. Sábia é uma grande amiga minha, goiana pelo destino e cosmopolita por opção. À primeira abordagem que fiz, inflou o peito de emoção e a expeliu a voz como um tufão: ''Massimo, afasta. Ocê trai''. O som do erre saiu dobrado, é claro, mas o impacto foi o conteúdo da frase.
Não que a verdade tenha me ofendido, imagine! O problema é que percebi no escudo verbal da amiga o resumo da ópera. Os homens traem, e não estou sozinho nesse mangue, creia. Tempos depois, descobri o sentido da vida. Ela também tinha um mangue a chafurdar - a mentira. Era igual a mim, mas dissimulava, como toda mulher, com uma habilidade que os machos nunca terão. Jamais descobriremos a fórmula, em hipótese alguma conseguiremos nos igualar. Nesse quesito, vamos correr atrás, mas nem em séculos reduziremos as diferenças.
A não ser que elas continuem a exercitar a curiosidade como uma prece de novena e nos inundem com perguntas que nunca cessam. Aí, como diria o filósofo Carlos Honorato, ''os homens mentiriam muito menos se as mulheres fizessem menos perguntas.'' É um sábio, esse rapaz.