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Rabanadas


Levanta-te e anda! Pelo menos até o banheiro mais próximo, ou ao closet ao lado. Procure algum lugar com espelho, onde você possa espanar do buço os resquícios de canela e açúcar que denunciam uma entrega refestelada a um Natal regado de gula. Confesse, não bastou a ceia da virada, a contagem regressiva que prenunciou o avanço às travessas e arranjos expostos à mesa. Ontem, do café da manhã ao frugal lanche noturno, as sobras do banquete farto tornaram-se uma espécie de Festa de Babete requentada. Deus seja louvado!

Uma escovada branda e o Sensodyne mineiramente aplicados não foram suficientes para remover os vestígios daquela inquietante rabanada. Nada menos parecido com Sharon Stone, nada tão atraente quanto. Mas não se culpe pelos pecados alimentados em plena celebração cristã. Certamente você não terá sido o único, nem mesmo é minoria. São muitos o que ainda estão com as bochechas espremidas no leito, arrastando pelo lençol um fio meloso de calda marrom e cintilante.

Tá certo que não havia necessidade de deixar tantas marcas indeléveis na fronha presenteada pela sogra. Logo agora que ela compreendeu que a cama king-size não é para comportar mais pessoas na barca de Morfeu. Mas talvez valha como uma pequena e ardilosa vingança, afinal, foi ela quem esculpiu, com as mãos quase seculares de doceira familiar, a pilha de rabanadas que o abduziu para o delírio e o pecado. Não se puna, de certo há muitos que hoje estão a buscar razão na nevralgia que assola um dos caninos - são eles que se metem nas entranhas do quitute.

Para ser sincero, a rabanada só podia ser coisa de sogra ou de alguma tia taciturna a qual buscamos decifrar desde a infância. Vou além. Bruxas, gnomos, duendes devem ter participado da concepção da fórmula. Não se trata de uma receita simplesmente terrena, com ingredientes sempre à mão no fundo dos potes da vovó. É impossível imaginar algo que tanto seduz brotando de pão adormecido. Pior, sugando como esponja velha todo o leite em que mergulha.

Ora, cá pra nós, você não se lambuzou e ofereceu às suas gengivas um workshop de cáries apenas para cumprir um ritual. Diga, na frente do espelho, que não conseguiu parar de comer pão com leite, canela e açúcar. E, mais ainda, saído de uma frigideira besuntada com a mais hidrogenada das gorduras. Esse seu canto da boca, pincelado com o marrom de um doce que não quer se calar, não é resultado de um ato contínuo de ceia natalina. São os restos de um vício e, é fato, somos uns viciados.

Não quero aqui propor uma entidade que nos proteja anonimamente, que entenda nosso desejo incontrolável, que respeite essa apoplexia desvairada por algo que se acha em uma prateleira de geladeira. Mas é preciso que entendam que em uma única semana do ano é possível abrir a porta do refrigerador e saciar tal vício. Olha, não sei se Glorinha Kalil ou Danusa Leão mantêm a compostura diante de uma travessa de rabanada. Gostaria de checar se a Gisele Bündchen pensa no contrato com a Victoria Secret quando se deparara com um amontoado daquele, por assim dizer, pão com banha.

Acho que divaguei demais e acabei por esquecer o companheiro que despertou há pouco com um ressaca de lipídios e glicídios. É bem provável que já esteja preparando um desjejum com o soborô de Natal, com direito à mais absoluta falta de pudor e duas fatias de rabanada. Antes que cometa erros gastronômicos ou de conservação, evite macular a divindade do sabor. Nunca deixa que essa hóstia canelada adormeça na vizinhança de um chester empavonado, daqueles que se acham muito por estarem ornados com um colar de fios d'ovos e penduricalhos de pêssegos e figos. Hã, mal sabe ele, moribundo e semidesossado, que precisa disso para enganar o sabor de flanela úmida.

Nem permita que a rabanada seja vizinha da travessa de Gomes de Sá. Cada um na sua. Nada melhor que um bacalhau curtido no azeite - se sobrar, é claro - para engrandecer o almoço de um domingo com jeitão de recesso no fogão. Mas certamente estaremos lá, nossa gula e a pilha de fatias meladas, já deixando escorrer um chorume com aspecto de néctar, para abrilhantar a sobremesa que não mais se aguardava. Concentre-se só nesses dois e coloque na despensa figurantes como o tender bolinha da dona Gertrudes, o pernil do tio Ary e o depressivo peru do primo Hilário, cada vez mais sem espaço em meio à pajelança de sabores.

Só assim todos entenderão sua boca borrada de açúcar, seus dentes cravejados de seqüelas, sua fronha vitimada pela epilepsia da gula. Eu, pelo menos, compreenderei. Mantenho o espírito de fim de ano, aquele que me leva a me acalmar, relaxar e respeitar a relação da ceia na casa de minha sogra, que aboliu, para meu espanto, a rabanada do cardápio. Dizem que em razão da minha dieta, pois uma cirurgia já havia me tirado o sublime direito de me intoxicar com uma Coca-Cola. Mas eu gostaria que minha sogra fosse o estereótipo da lenda e me entupisse de rabanada até o Ano-Novo. Dá tempo?!


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[26/DEZ/2004]


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