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Aviso logo que estou escrevendo antes do amistoso contra a Iugoslávia, o que me garante total imparcialidade. Importa pouco se vencemos ou fomos derrotados. Mesmo que tenha ocorrido uma goleada contra ou a favor, debaixo de vaias humilhantes ou de aplausos consagradores, nada disso faz diferença porque agora é tarde. Iremos à Copa do Mundo, a menos que ocorra um milagre, com um time de futebol convocado e treinado pavlovianamente sob a égide da palavra grupo. O diabo do grupo, transformado em fetiche e batido até o ponto de perder inteiramente o sentido, tudo rege, tudo justifica na seleção brasileira. "Estamos quase fechando o grupo", anunciou Luiz Felipe Scolari, que, como se sabe, tem como critério fundamental para o agrupamento de um jogador o entusiasmo com que ele o abraça na comemoração de um gol. "Fulano é de grupo, Beltrano não é", repetem por aí, impressionados, os (raros) fãs remanescentes do técnico. Tudo cretino fundamental, como diria Nelson Rodrigues, que tanta falta nos faz. Estão engrupindo o torcedor e só não vê quem não quer. Nessas horas, nada como a velha etimologia para clarear um pouco o cenário.

Grupo vem de kruppa, palavra germânica que significa "massa enrolada". Ah, então está explicado! Não é de hoje que a seleção se apresenta como uma massa enroladíssima, confere? Tão enrolada, na verdade, que adversários temíveis como Honduras só tiveram o trabalho de jogar um parmesão ralado em cima e comê-la enrolada no garfo. Talvez seja mesmo esse kruppa de origem germânica que Scolari - certamente um admirador da cultura alemã, com tudo o que ela embute de autoritarismo e disciplina - tem em mente quando elege palavrinha tão idiota para nortear o futebol tetracampeão do mundo. Essa é uma possibilidade de peso, mas não a única. Também me ocorre que o treinador possa estar aludindo a uma acepção de grupo muito usada na linguagem brasileira informal: a de mentira, engodo, fraude, de onde derivamos o verbo engrupir. A tese é tentadora. Nesse caso, "estamos quase fechando o grupo" significaria "a mentira está quase pronta, a fraude está quase completa". E não é que está mesmo? Vários crimes cometidos pelo treinador se explicariam à luz desse novo sentido: Marcos é realmente um grande goleiro de grupo, Luizão é com certeza um matador de grupo como poucos, e sem Beletti um grupo deslavado que se preze jamais seria completo.

A essa altura cabe esclarecer que não, não sou mais um dos milhões de órfãos de Romário. Acho que o Baixinho, que nunca foi de engrupir ninguém, vai nos fazer a maior falta na Copa, mesmo estando velhusco e alquebrado, mas acredito que outros jogadores no auge de sua forma técnica, como França, Felipe e até Dodô, também farão. Tenho idade suficiente para saber que técnico de seleção é assim mesmo, tem lá suas teimosias. Pois se o Telê, que gostava de talento e nunca foi de repetir essas asneiras de grupo ou grupelho, levou Valdir Perez de goleiro e Serginho Chulapa de centroavante ao Mundial, o que esperar de alguém como Scolari?

O problema não é a ausência de Romário. Grave mesmo é perceber que, como em tantas áreas da vida nacional, também no futebol estamos trocando o brilho pela opacidade bem-comportada, o dom imponderável que nos fez famosos pela mediocridade bovina e bajulatória. A pior tragédia que nos poderia acontecer seria ganhar a Copa do Mundo nessas condições. Felizmente, o risco tende a zero.

[31/MAR/2002]

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