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Tatu, vai tu mesmo...

SÉRGIO RODRIGUES

Alguém aí já viu o mascote da Globo para a Copa 2002? Ele anda sumido (parece que enfrenta oposição até dentro da emissora, coitado), mas o fato é que foi apresentado com pompa aos telespectadores no encerramento da transmissão de Brasil x Venezuela, quando garantimos nossa suada vaguinha. Se não for abortado nos altos andares do Jardim Botânico, imagino que o destino do personagem seja freqüentar a paciência pública com assiduidade crescente de agora em diante, aspirando a virar um Pacheco. Não que se trate de mais um protótipo de torcedor-mala, a coisa é mais original. O mascote que a Globo apresentou é um tatu. Isso, um tatu. Tatu de desenho animado, é verdade, bem diferente do mascote laqueado do presidiário Hélio de la Peña no Casseta e Planeta, que em episódio recente foi visto cumprindo a sina de sua raça - como se sabe, brasileiro come tatu. Nada tão grave, porém, se abate sobre o bichinho da Globo, um tatu até simpático: sorridente, ágil, bem produzido. Mas ainda tatu. E vestido de canarinho.

A piada mais fácil é a primeira que me veio na hora: vemos o tatu cavando o seu buraco e pensamos, como um cronista barroco: ''É, tatu, deves mesmo na terra enfiar a cabeça, para não veres o futebol medroso, travado, mentalmente contundido que aqui jogamos hoje em dia, maculando as nobres cores do pavilhão em que te adornas''. Mesmo trajando canarinho, a ave que o cívico tatu evoca é outra, o avestruz: ''Melhor nem olhar, o que não vemos não existe'', parece dizer. Se a seleção for tão mal na Copa quanto muitos de nós tememos nos momentos de maior realismo (que, felizmente, por aqui dão e passam), é avestruz que o tatu será.

Mais alguns segundos de filmete e aí entendemos tudo, a que veio o tatu. O bichinho, depois de se enfiar na terra aqui no Brasil, continua cavando e vai sair... no Japão! E na Coréia do Sul! Nos dois ao mesmo tempo, presume-se, com a licença geográfica dos desenhos, mas aí a culpa é menos do tatu que do Blatter. Quer dizer: se fosse um canarinho, iria voando, numa viagem certamente mais aprazível e inspiradora de jornadas gloriosas. Como é tatu, vai tu mesmo, quer dizer, de metrô. Por achar o canarinho um símbolo afrescalhado demais, João Saldanha trocou-o no mercado de animais silvestres por suas feras, que ganharam o tri. A Globo preferiu, a onças e leões, escalar o tatu.

Não chego ao exagero dos que viram no animal o augúrio definitivo de nossa condenação. Argumentam estes que é impossível sair vitorioso de qualquer competição tendo como símbolo um bicho tão medroso, tão desajeitado e feio, tão comicamente ligado a nossas raízes rurais mais atrasadas. Tatu lembra Jeca Tatu, a cachaça Tatuzinho, tardes de preguiça mascando fumo de rolo enquanto o roçado vai pro brejo. Como galgar as muralhas da China (primeiro lugar garantido do grupo, segundo o doutor Sócrates), se vamos buscar inspiração em um animal assim? Será que depois do complexo de vira-lata, muito bem denunciado por Nelson Rodrigues, vamos cair no complexo de Jeca Tatu?

Calma. Tanto alarmismo deixa de levar em conta duas coisas. A primeira é a capacidade do futebol brasileiro de transformar símbolos negativos em trunfos, sem a qual o Flamengo, com um Urubu pousado em sua sorte, não seria a potência que sempre foi e, com a ajuda do Porco, ainda é. O segundo aspecto que os inimigos (inclusive os globais) do tatu não consideram é a capacidade que têm os êxitos de reescrever a história. Pois quem sabe um pouco de nacionalismo, mesmo caipira, não faria a Seleção se convencer de que o futebol é um esporte que aqui sempre jogamos com alegria, achando que dava pra ganhar? Nem sempre dava, claro. Mas se for para jogar assim (impossível não há), viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu!

mascando@jb.com.br

[09/DEZ/2001]

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