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Longevidade

A matéria selecionada para iniciar o ano tem por objetivo desejar aos leitores do JB, em geral, e aos de minha coluna, em particular, longevidade com longevitalidade! De nada adiantaria viver muitos anos, com carência de saúde física e mental e sem preservação da capacidade de ser útil e produtivo. Embora, por observação, até os leigos diferenciem uma pessoa idosa de uma madura, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu quatro faixas etárias, a partir dos 40 anos:

1. Transição (middle age, como denominam os americanos) - entre 40 e 65 anos;

2. Idosa - entre 66 e 75 anos;

3. Velhice - após os 75 anos;

4. Longevidade - após os 90 anos.

Vivemos uma revolução demográfica sem precedentes, que se processa em silêncio, sob o olhar míope da maioria dos governos. Para se ter uma idéia, hoje, a cada ano, se ganham três meses de vida. De 1955 até o presente, a população mundial saltou de 2,8 bilhões de habitantes para 5,8 bilhões: um aumento de 72,5% em 27 anos. As previsões são de crescimento anual de 80 milhões de habitantes, atingindo a marca de 8 bilhões em 2025. O número de pessoas com mais de 65 anos que, atualmente, é de 390 milhões deverá atingir 800 milhões em 2025, passando a representar 10% do total. Embora os dados tenham sido projetados por técnicas estatístico-demográficas cuidadosas, não são isentos de erros. Demógrafos falham quando há fenômenos naturais imprevisíveis ou guerras. Quem anteciparia a dos Bálcãs ao fim do século 20, a do Afeganistão no início do 21 e a iminência de conflito no Iraque?

No que se refere às estatísticas brasileiras, já se tem acesso a números úteis ao planejamento na área da saúde. Nos primeiros 50 anos do século 20, a expectativa de vida cresceu de 33,7 para 43,2 anos. Ao final de 1960, passou para 55,9 anos e a previsão é de que atinja 72,4 anos em 2015, praticamente igual à internacional. Pelo censo de 1996, a população brasileira com mais de 65 anos atingia 8,5 milhões de habitantes, número correspondente a 5,35% do total. Se as projeções se confirmarem, em 2025, a população acima de 65 anos poderá representar cerca de 10% da população do país.

Chamo atenção para o fato de todos os números serem médios. Infelizmente, como observou o Diretor Geral da OMS, Hiroschi Nakajima, os anos extra de vida já conquistados não foram partilhados igualmente por ricos e pobres. Em 1998, 3 entre 4 pessoas morreram em países pouco desenvolvidos, antes de completar 50 anos, expectativa média de vida alcançada meio século atrás. Mesmo com as disparidades que se escondem em dados agregados, a expectativa média da vida humana tem aumentado em aceleração constante.

O extraordinário avanço observado na extensão da vida pode ser atribuído à evolução, sem precedentes, das áreas científicas que subsidiam a medicina. Podem ser citados: desenvolvimento de antibióticos cada vez mais poderosos, na medida em que as bactérias a eles se tornam resistentes; criação de vacinas múltiplas, erradicando doenças, algumas das quais incapacitam os pacientes; preparação de remédios sofisticados para controle do que classifico como males do século: hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, osteoporose, doenças reumáticas, estresse e depressão; aperfeiçoamento de procedimentos médicos semi-invasivos, como a angioplastia com colocação de stents; avanços cirúrgicos em todas as especialidades, com probabilidade de risco de vida a cada dia menor; introdução de procedimentos ousados, como transplantes de órgãos; e clonagem que, embora uma realidade em animais, provoca discussões éticas sobre sua aplicação em seres humanos; e as promessas inimagináveis da medicina genética.

A disseminação da longevidade humana já está tendo repercussões em todos os países, pobres ou ricos. No século 21, um dos principais problemas será determinar melhores formas de prevenir e retardar doenças e de preservar a saúde, a autonomia e a mobilidade dos idosos. Para países pobres e emergentes a longevidade da população demandará esforços hercúleos. As conseqüências sociais são imprevisíveis. Segundo o Professor de medicina Dr. Gregory Stock, da Universidade da Califórnia, problemas como aposentadoria, carreira profissional e até estrutura familiar terão de ser repensados. Esses problemas, aliás, têm sido objeto de discussões políticas no Brasil, que esperamos não tenham soluções frustradas por motivação demagógica.

[05/JAN/2003]

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