Ronaldinho Fenômeno, que monopolizou as manchetes das revistas de todos os matizes com o episódio de sua separação, manteve-se como senhor absoluto da mídia esportiva ao participar de um cansativo jogo mental com Carlos Alberto Parreira, objetivando ser poupado da disputa da Copa das Confederações. Preocupado com os jogos contra os Tigres de Monterrey pelas quartas-de-final da Libertadores, o São Paulo poupou diversos titulares contra o Cruzeiro. O Cruzeiro, por sua vez, pensando no jogo com o Paulista pelas semifinais da Copa do Brasil, poupou alguns de seus jogadores. Também de olho nas semifinais da Copa do Brasil, o Fluminense desprezou o Fla x Flu e poupou algumas estrelas que estarão em campo contra o Ceará no meio da semana. De olho no Atlético Paranaense pelas quartas-de-final da Libertadores, o Santos poupou a estrela da companhia - o extraordinário Robinho - do clássico contra o Palmeiras. Adversário do Santos na Libertadores, o Atlético até que gostaria de ter poupado alguns atletas contra o Botafogo, mas sua condição de lanterna o impediu de fazer planos mais conservadores.
Por que será que o Brasil está vivendo esse autêntico surto poupador? Dizem alguns especialistas que os jogadores de futebol, dado o frenético ritmo em que o esporte é praticado na atualidade, não devem atuar duas vezes por semana. Não sou preparador físico, mas discordo dos que assim pensam. O esforço de um jogador no futebol moderno é sem dúvida mais intenso do que no passado, mas, ainda assim, está longe de ser uma violência. Quem duvidar disso pode perguntar a Lance Armstrong o que é subir os Pirineus de bicicleta em dias seguidos, durante o brutal Tour de France. Ou aos atletas da NBA, que chegam a disputar sete partidas de playoffs em menos de duas semanas. O futebol, com onze jogadores em cada equipe, contínuas pausas ao longo das partidas e a possibilidade de um time eventualmente cadenciar o andamento do jogo, está longe de ser o mais exigente dos esportes. Por conta disso, acho que há excessiva valorização da importância do descanso entre os praticantes do velho esporte bretão.
Efeitos colaterais
De concreto, o que conseguiram os poupadores? Se ficar fora da Copa das Confederações, Ronaldo perderá a chance de se reconciliar com as boas atuações pela Seleção Brasileira, coisa que não acontece desde 2002. De quebra, abrirá espaço para os excepcionais atacantes brasileiros, todos de olho naquela camisa 9. O São Paulo poupou titulares - e também dois pontos na classificação do Brasileirão. Pontos que o deixariam mais próximo dos líderes e pronto para uma arrancada a partir do desfecho da Libertadores. Se fracassar na Libertadores, o tricolor paulista precisará justamente da pontuação do Campeonato Brasileiro para buscar a revanche na principal competição Sul-Americana. Sorte dos comandados de Autuori que o Cruzeiro também era poupador, e o jogo acabou num empate sem graça. Tão sem graça quanto o Fla x Flu, no qual o econômico Fluminense jogou fora a chance de distanciar-se do favorito Santos na briga pela liderança do campeonato. Com Santos e Flu poupando ambições, o Botafogo teve uma chance de ouro para assumir a ponta.
O que todos esses conservadores times não entendem é que, no esporte, mais inspirador do que uma semana de descanso é uma semana de glória. Imaginem a motivação do Fluminense, que não vence há um bom tempo, se viajasse para o Ceará como líder e após uma goleada sobre o Flamengo. Imaginem com que pavor o lanterna Atlético Paranaense encararia um Santos líder. Imaginem como renderiam Cruzeiro e o São Paulo após uma estimulante vitória antes dos difíceis confrontos do meio da semana. Infelizmente, os homens que comandam esses clubes não parecem ter imaginação. Eles preferiram ouvir os conselhos dos preparadores de prancheta na mão, em vez de atenderem ao apelo dos próprios jogadores de futebol - que, desde que o mundo é mundo, adoram jogar futebol. A exceção é o Fenômeno, que outra vez parece disposto a dar novo sentido ao seu apelido.