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Racismo no futebol


Eu sei que o Campeonato Brasileiro completou ontem sua primeira rodada. Entretanto, como na semana passada eu cumpri meu dever de cronista e fiz os inevitáveis prognósticos para o certame, gostaria hoje de dedicar algumas linhas a um tema que, por incrível que pareça, ainda ocupa manchetes esportivas e não esportivas em pleno Século XXI: o racismo. Como não sou antropólogo como o meu grande ídolo Roberto da Matta, procurarei centrar minha análise no racismo dos gramados, deixando claro que ele não passa de uma manifestação mais visível de um problema que vai muito além do futebol nosso de cada dia.

Para começar, uma constatação: existe racismo no Brasil. Pode parecer tolice escrever algo tão óbvio, mas o que mais prejudica a erradicação dessa mazela é justamente a crença na figura do brasileiro cordato, miscigenado e não preconceituoso. Grafite, negro, magro e alto, não se sente ofendido por ter recebido o apelido de Grafite - cuja origem está evidentemente ligada ao seu tipo físico. É provável que o mesmo tenha ocorrido com Escurinho, Marcelinho Paraíba (em vez de paraibano), Jorginho Carvoeiro, Júnior Negão, entre tantos outros artistas da bola.

Um dos primeiros clubes de futebol fundados no país, o meu Fluminense, teve, infelizmente, a primazia dos episódios de discriminação racial por estas bandas, fato que está relatado numa obra seminal, intitulada O negro no futebol brasileiro. Escrito por Mário Filho - homem que fundou a crônica esportiva no Brasil -, claramente inspirado nas idéias de Gilberto Freyre, o livro procura mostrar que a miscigenação foi a pedra de toque da arte brasileira de jogar futebol. Uma de suas passagens narra a história de Carlos Alberto, um mulato que jogava no América e que, para poder vestir a camisa do Fluminense, passava pó-de-arroz no rosto tentando disfarçar a cor da pele. Durante as partidas, o inevitável suor revelava o disfarce, fato que levou os adversários a inventar o apelido de pó-de-arroz - mais tarde orgulhosamente incorporado pela torcida tricolor.

Não menos racista é a origem do apelido de urubu, dado ao Flamengo por seus adversários, que acabou adotado como mascote oficial do time da Gávea. É essa passividade, essa aceitação e até essa incorporação dos estereótipos racistas que fazem com que o problema da discriminação demore a desaparecer. Por outro lado, não posso deixar de destacar os clubes que lutaram contra a desigualdade - caso do Vasco, primeiro carioca a contratar jogadores negros, e do Internacional de Porto Alegre, cidade com grave histórico de discriminação racial, cuja população negra foi recebida de braços abertos pelo Colorado.

É inacreditável que Desábato e a torcida do Quilmes tenham ofendido Grafite. Por quê? Além da imoralidade das ofensas, existe um imenso paradoxo na questão. Sim, pois Desábato já deve ter sido chamado de negro na Argentina. Ele e boa parte dos moradores de Quilmes, periferia pobre de Buenos Aires, com milhares de habitantes com traços indígenas (maioria entre a população do interior), que lá são chamados pejorativamente de cabezas negras. Cansei de ouvir argentinos se referindo a Maradona como Desábato se referiu a Grafite: ''negro de m...''. Caso não acredite nisso, acesse o Google e digite ''Maradona'' + ''negro de m...''. Eu encontrei 480 ocorrências para a minha busca. Lamentavelmente, o próprio Maradona saiu em defesa de Desábato, confirmando minha percepção de que colocar panos quentes é a pior das atitudes em relação à questão.

Grande catalisador das emoções nacionais, o futebol pode e deve servir de exemplo no combate ao racismo. O jogador chamou o juiz de paraíba? Deve ser suspenso e indiciado. O comentarista se referiu ao jogador como ''aquele crioulinho''? Processo nele. Tolerância zero. Não há outra maneira de erradicar esse crime no Brasil. Sim, porque, antes que alguém diga que não saiba, nunca é demais lembrar que racismo é crime.

Rio x SP no Maracanã

Eu havia prometido uma coluna sobre a grande conquista do Campeonato Estadual pelo Fluminense. Mas, como na estréia do Brasileirão o Flu ganhou uma espécie de Rio x SP simbólico, ao bater convincentemente o atual campeão paulista, escreverei aqui sobre o jogo de ontem - e reservarei o texto épico sobre o Tricolor para o prefácio do novo livro do Nelson Motta, Breve história de uma máquina de jogar futebol, próximo lançamento da série Camisa 13. Confiram.

O Fluminense mostrou que, ao menos no momento - e futebol é momento -, é um dos melhores times do país. O São Paulo atuou com sua força máxima e foi dominado pelo time de Abel. O lateral Gabriel, mais uma vez, foi o destaque do Tricolor, que contou ainda com ótimas atuações do goleiro Kléber e do centroavante Tuta, que mostrou a diferença que um centroavante de área e profissão faz. Mas a maior façanha da primeira rodada do campeonato foi mesmo a vitória do Botafogo no sul, contra o arrumado Internacional.


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[25/ABR/2005]


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