O grande assunto do final de semana esportivo no Brasil foi mesmo o esperado confronto entre Robinho e Tevez, protagonistas do clássico Santos x Corinthians, disputado ontem na Vila Belmiro. Guardadas todas as proporções e levando em conta que o futebol por estas bandas já viveu dias indiscutivelmente melhores, me atrevo a dizer que desde os tempos em que Pelé e Rivelino envergavam as camisas alvinegras dos dois rivais não víamos um confronto tão centrado nas prima-donas das companhias como este.
Em comum, Robinho e Tevez têm muita coisa. A começar pela (pouca) idade: 21 anos. Além da juventude, ambos são jogadores de extrema habilidade, que cultuam os dribles e as jogadas de efeito sem perder de vista a importância de marcar gols. Robinho é mais arisco, enquanto Tevez é mais raçudo. Os dois são, também, vencedores. O santista já conquistou dois campeonatos brasileiros, enquanto o corintiano ostenta um invejável currículo, que inclui um campeonato argentino, um título da Copa Libertadores, uma Copa Sul-Americana, um Mundial Interclubes e, de quebra, a medalha de ouro olímpica, título que nem mesmo Pelé conseguiu. Escritas? Se por um lado Robinho leva desvantagem no retrospecto contra Tevez em jogos da Seleção Pré-Olímpica e na decisão da Libertadores, por outro o craque santista não sabe o que é perder para o Corinthians. O time do Parque São Jorge chegou ao confronto com uma secura de quatro anos sem bater o rival. Um total de nove jogos, com sete vitórias do Peixe e dois empates.
Robinho comanda o olé
Jogando em casa e com a responsabilidade de representar a arte brasileira contra a astúcia portenha, Robinho começou quente. Pediu a primeira bola do jogo e tentou logo fazer dribles em fila, mas acabou desarmado. Depois tentou várias jogadas até que, aos sete minutos, recebeu a bola na lateral direita da área adversária, pedalou um par de vezes diante do marcador, fintou-o e acertou um cruzamento perfeito para Léo tocar por entre as pernas de Fábio Costa. Ainda no primeiro tempo, aos 13, o menino da Vila quase marca o segundo, de cabeça. Aos 15, com um toque de calcanhar, serviu Fabinho, que chutou forte, mas foi parado por uma bela defesa do goleiro corintiano. O lado direito - logo o lado direito! - da defesa do Timão estava escancarado. Só dava Santos. Só dava Robinho.
Tevez não estava liquidado. Tanto é assim que em duas jogadas do argentino, no final da primeira etapa, o goleiro Mauro fez três desavergonhados milagres, em tiros à queima-roupa de Gil, do próprio Tevez e de Jô. Mas, com apenas um minuto de jogo na segunda etapa, Robinho mostrou que o dono do jogo era mesmo ele. Uma pena que, instantes depois do gol, um imbecil que acha que é torcedor do Corinthians atingiu com um pedregulho a cabeça do goleiro santista. Mauro, que sangrou bastante, foi atendido e continuou em campo. Deu sorte, pois uma pedrada daquelas poderia ter-lhe causado danos bem mais sérios. Reiniciado o jogo, reiniciou o show de Robinho, que aproveitou os contra-ataques fartamente oferecidos pelo Corinthians e marcou de novo aos 10 minutos, liquidando a fatura e dando início a um olé que durou 40 minutos.
Robinho e Tevez têm uma derradeira característica comum, e esta talvez seja a mais importante. Eles representam, para Brasil e Argentina, a garantia de um futuro futebolístico à altura das melhores tradições dos dois países. Países que representam as duas principais escolas da história do futebol mundial. Sendo que a nossa, como provam as cinco estrelas na camisa amarela - e como Robinho confirmou ontem - está alguns degraus acima da deles.
Enquanto isso, no Maraca...
Num outro ''clássico'' alvinegro, o Americano jogou com o uniforme e com o futebol do Botafogo. Já o Botafogo, de branco, passou literalmente em branco. De Cambridge, onde dá aulas como professor convidado, o documentarista João Moreira Salles, botafoguense apaixonado e pessimista, mandou-me um e-mail. ''Ouça o profeta: o Botafogo só conseguiu a façanha de ser o único grande entre os finalistas da Taça Guanabara para ser tragicamente derrotado na final com a Cabofriense''. Pela primeira vez na vida, João foi otimista, já que nem à final seu time conseguiu chegar. O futebol carioca atravessa mesmo tempos cinzentos.