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Alguma surpresa?


O sempre genial Millôr Fernandes escreveu esta semana que o século XX acabou com um dos sentimentos essenciais ao ser humano: o espanto. Millôr - que é tricolor do Méier e, como sabemos, ''quem é do Méier não bobéia'' - está certo. Nestes tempos de tanta inteligência artificial e estupidez cada vez mais natural, nenhum prodígio parece capaz de levar-nos a uma reação mais exagerada que um leve arquear de sobrancelhas. De forma que, após mais uma rodada recheada de tropeços dos chamados grandes clubes nos campeonatos estaduais, eu pergunto: alguém se espantou com isso?

É verdade que o goleiro Sílvio Luiz não precisava ter fechado o gol daquela maneira, sendo figura fundamental na vitória do São Caetano sobre o Palmeiras. Se bem que não incluir o São Caetano - atual campeão paulista - no rol dos grandes chega a ser injusto. É preciso dizer que o Palmeiras mostrou coragem, atuou sempre no ataque e perseguiu apaixonadamente o gol durante os 90 minutos. Falta ao time do Parque Antarctica um atacante vocacional: um Vágner Love, sem ir mais longe. O Palmeiras foi a segunda vítima entre os grandes. A primeira foi conhecida no sábado, uma vítima que lamentavelmente se tornou manjada. Estou falando do Flamengo, é claro, que não satisfeito em levar um olé de 45 minutos do Olaria na semana passada (diante de uma extasiada torcida do Fluminense), no sábado foi batido sem apelação pela frágil Cabofriense.

O mesmo Olaria, que fez a alegria do Fluminense na penúltima rodada, ontem foi a pedra na chuteira do time das Laranjeiras. Depois de perder um pênalti e dominar o primeiro tempo, o azul e branco da Rua Bariri chegou ao segundo gol numa cobrança de lateral na área, jogada popularizada nos anos 80 e que hoje eu julgava tão extinta quanto o espanto do Millôr. Menos mal que o Flu tinha os estreantes Tuta e Gabriel e chegou ao empate. Empate que até o deixou à frente do Flamengo, mas apenas na quarta colocação de um grupo com seis clubes. Os três primeiros são Americano, Cabofriense e Olaria. O Flamengo é o lanterna. No outro grupo, o Vasco é o segundo e o Bota o terceiro. O líder é o Voltaço. E caso alguém ache que a crise dos grandes clubes nos estaduais está restrita ao eixo Rio-São Paulo, o Atlético estreou ontem no Campeonato Mineiro perdendo de virada para o Valeriodoce.

Tevezmania

Graças à tarde inspirada de Carlos Alberto, o Corinthians livrou-se de fazer companhia aos grandes clubes que tropeçaram na rodada. Não tropeçou na rodada, mas, já penou um bocado diante dos pequenos no Paulistão. Carlos Tevez, o grande fenômeno de marketing da temporada, manteve-se apenas como tal: a fiel corintiana encheu o Morumbi para acompanhar sua estréia, mas futebol mesmo ele pouco mostrou. Acho, no entanto, que Tevez é ótimo jogador, tem a cara do clube e ainda verá o seu talento ser reconhecido no Brasil. Já o Santos não escapou da rodada cheia de tropeços, ficando apenas no empate - justíssimo - com a frágil Portuguesa Santista. Léo fez falta ao Peixe. O vaiado Luis Augusto que o diga. Elano, que deve ir para a Ucrânia, fará mais ainda. Só o São Paulo manteve, a duras penas, a regularidade. A vítima foi o União São João, que já foi um dos chamados ''pequenos abusados'', mas hoje nem isso.

O clássico da rodada

O único clássico autêntico da rodada foi Botafogo x Vasco, empate chocho com gols dos Alex, num jogo não esteve à altura da rivalidade entre ambos. De bom mesmo, apenas o belo gol do Alex vascaíno, o Dias. O Botafogo dominou o primeiro tempo, quando o Vasco errou enorme quantidade de passes. No segundo tempo, o domínio foi do Vasco, com movimentação surpreendentemente boa de Romário. Aqui talvez resida a explicação para a ausência de surpresa com os tropeços dos grandes: como os melhores - e até os razoáveis - jogadores do Brasil são negociados rapidamente para o exterior, os grandes clubes têm poucas opções para montar seus times. Eles acabam optando por jogadores com nomes conhecidos e talento na descendente. Já os pequenos, que não podem pagar pelos nomes, acabam apostando mais nos jovens talentos. Com isso, a equação fica equilibrada.


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[31/JAN/2005]


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