Esta crônica eu estava devendo há um bom tempo. Precisamente desde julho deste ano, quando a Rede Globo levou ao ar uma série de reportagens sobre os 10 anos do tetra. As reportagens exibiram imagens dos bastidores da vitoriosa campanha, captadas pelos próprios jogadores. Em meio a muitas histórias emocionantes e divertidas, um personagem brilhou mais do que todos os outros: Ricardo Rocha. Eu já havia desistido de escrever a crônica sobre o zagueiro pernambucano quando, ao folhear o encarte de um CD da banda argentino-espanhola Los Rodríguez - uma das favoritas dos meus tempos de Buenos Aires -, deparei-me com a foto do vocalista Andrés Calamaro vestindo uma camiseta com o rosto do nosso beque. Não são muitos os argentinos dispostos a vestir camisetas com fotos de jogadores brasileiros. Isso só acontece quando o jogador em questão é tão bom de bola e tão bom caráter quanto o meu personagem de hoje.
Oficialmente, Ricardo Rocha não foi um dos heróis da Copa dos Estados Unidos. Vítima de grave contusão, assim como Ricardo Gomes, ele foi descartado da equipe comandada por Parreira antes mesmo do jogo de estréia. Nossa zaga, uma das melhores da história, terminou sendo formada por Aldair e Márcio Santos. Ocorre que, ao contrário do que costumam fazer os jogadores cortados por contusão, Ricardo Rocha não voltou para o convívio de sua família, preferindo ficar com o grupo durante os cerca de 40 dias daquela inesquecível campanha. Essa decisão seria fundamental para o triunfo da Seleção.
Vivemos tempos de individualismo, de exacerbado culto ao número um. Reflexo do domínio cultural do país que concedeu um segundo mandato para um dos homens mais questionados deste início de século? É possível. Mas isso não vem bem ao caso. O importante é que, num mundo que venera os protagonistas, Ricardo Rocha mostrou a força dos coadjuvantes. As pessoas sempre falam dos líderes, dos heróis, dos mártires, mas se esquecem de como é importante ter num grupo aquela figura à qual todos se referem singelamente como gente-boa. Ouso dizer que nenhuma guerra foi vencida sem um gente-boa por perto, da mesma forma que os avanços da ciência não seriam tão rápidos se os gentes-boas não circulassem pelos laboratórios. Os gentes-boas são o sal do mundo: aproximam pessoas, pulverizam tensões, costuram alianças, curam feridas. Acredito que o Brasil não teria vencido a Copa de 1994 - ou qualquer outra - sem um gente-boa no grupo. Como Garrincha em 1958 e 1962, Ricardo Rocha foi o gente-boa da campanha do tetra.
Como os astronautas da Apolo 13, Ricardo Rocha viu a lua de perto, mas não pôde pisar nela. Ele era titular do time que conquistaria a tão sonhada Copa depois de 24 longos anos, mas viu seu sonho ser abortado. Ora, se aquele cara conseguia estar sempre alegre, quem se atreveria a ficar desmotivado? Nosso zagueiro gente-boa anulou o peso quase insuportável de uma campanha de Copa do Mundo. Com ele por perto, Romário não brigou com Zagallo, Dunga não deu cabeçadas em Bebeto e o grupo não se indispôs com Parreira. Raí foi barrado para a entrada de Mazinho sem que houvesse lamúrias, discussões ou rachas. O gente-boa não jogou, mas marcou gols de placa usando seu carisma, espírito gregário e o poder da amizade. As enciclopédias do futebol não apontam Ricardo Rocha como um dos pilares da conquista da Copa do Mundo, mas quem já compreendeu que o futebol e a vida não se resumem ao que acontece dentro das quatro linhas ou das quatro paredes sabe que aquele tetracampeonato também pertence a ele.