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Gritos olímpicos em Atenas


''Sou Marcelo Pereira da Silva, um dos garotos mais bonitos do Brasil, filho de mexicano nascido na Indonésia''. Quando ainda era apenas um moleque de subúrbio e morava num sobrado em frente à minha casa, Marcelo já mostrava talento para divertir as pessoas e vocação de globetrotter. Em Madureira, ele era conhecido pelo apelido de Gordo, mas depois se tornou famoso como Marcelo Tyson - misto de radialista, MC e animador de festas e eventos. Mais recentemente, Marcelo incorporou outro personagem: o Homem Grito, emérito animador de torcidas e membro da trupe de um programa de pegadinhas na TV. Com esse interessante currículo, meu amigo sempre conseguiu um patrocinador aqui, outro ali, e deu um jeito de marcar presença nos grandes eventos esportivos mundiais. Nos Jogos de Sidney, eu estava em casa dormindo quando o telefone tocou: ''Filho, põe no programa do Jô para ver quem está dando uma entrevista hilária'', disse minha mãe. Era ele, o Homem Grito. Na última Copa do Mundo, encontrei-o em Kobe, agitando a massa nipônica na porta do estádio. Agora, em Atenas, lá está ele de novo, aos berros, entre os torcedores do vôlei.

Sempre que revejo o amigo de infância, penso nas voltas que a vida dá. Éramos vizinhos, somos amigos, mas agora ele torce, enquanto eu escrevo. Como torcedor, será que Marcelo reparou que a cerimônia deste ano teve menos plumas, paetês e pirotecnias e mais história e emoção? Será que, entre um grito e outro, ele também ficou surpreso com a perseverança dos gregos, que estão produzindo um evento de excepcional qualidade? É provável que não. Mas, acho que até ele já se deu conta da nossa vocação para os esportes coletivos. Do mesmo modo, deve ter percebido que, mesmo nesses tempos de esporte profissional, científico e globalizado, algumas zebras olímpicas continuam dando o ar da graça.

Brasil coletivo

Nos esportes coletivos, quando não vamos bem, pelo menos não fazemos feio. É verdade que estamos longe de sermos uma potência em modalidades menos difundidas, como o pólo aquático e o handebol. Mas no futebol e no basquete - em que pese a decepção das seleções masculinas nos pré-olímpicos -, bem como em todas as categorias do vôlei, o Brasil costuma lutar por medalhas. Já nos esportes individuais, apesar da presença de atletas como Guga, Daiane dos Santos, Torben Grael e Rodrigo Pessoa em nossa delegação, normalmente terminamos na rabeira. Os esportistas citados trilharam seus caminhos no esporte muito mais em função de suas obstinações pessoais do que em decorrência de um trabalho de base. Torben e Rodrigo são atletas de esportes elitistas, que, desde a infância, tiveram apoio financeiro para praticar suas modalidades. O campeão Guga foi fruto da combinação de talento natural com garra e carisma. Ele odeia os cartolas do tênis. Já Daiane é um fenômeno. Suas pernas poderosas produzem inacreditável impulsão, que torna seus saltos tão inimitáveis quanto as performances do violinista Paganini. Paganini tinha mãos descomunais. Daiane tem pernas prodigiosas.

Zebras de toca

Em dois dias de Jogos, já apareceram uns quantos resultados inesperados. O próprio vôlei brasileiro, que está entre os favoritos à medalha de ouro nas praias e quadras, sofreu um pouquinho mais do que o previsto na primeira rodada. Jan Ulrich, mago do ciclismo, não chegou nem perto do pódio na prova de longa distância. E, pasmem, os Estados Unidos ainda não dispararam no quadro de medalhas. Mas, nenhum resultado foi tão surpreendente quanto o do revezamento 4x100m livre masculino da natação. Os americanos contavam com mais uma medalha para Michael Phelps, a Austrália tinha o gigante Ian Thorpe, mas quem abiscoitou a prova e, de quebra, bateu o recorde mundial foi a equipe da África do Sul.


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[16/AGO/2004]


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