Uma das coisas que fazem falta ao futebol moderno é o saudoso torneio início. Uma semana antes da rodada inaugural dos campeonatos estaduais, todos os times e todas as torcidas se encontravam no principal estádio da capital para um torneio que se resolvia numa tarde, através de jogos de apenas cinco minutos, nos quais escanteios e bolas nas traves valiam meio gol. Era uma linda festa, que permitia que os grandes clubes apresentassem suas estrelas e, graças à imprevisibilidade dos curtíssimos confrontos, dava aos pequenos a chance de conquistar um título que no campeonato de verdade era como um sonho impossível. Sinal dos tempos: hoje um torneio início não seria viável, se não por outro motivo, ao menos porque juntar todas as torcidas da cidade num mesmo estádio é algo com cheiro de tragédia.
Não temos mais o torneio início, mas ainda temos o início dos torneios, representado por aquelas rodadas iniciais, quando todos ainda têm esperanças e tudo ainda parece ser possível. É justamente essa a fase que atravessamos no Brasileirão 2004. Não é possível fazer projeções embasadas, com tão poucas rodadas disputadas, mas algumas observações já podem ser feitas. A primeira delas diz respeito ao equilíbrio do torneio. Se no ano passado acompanhamos Cruzeiro, Santos e São Paulo abrindo grande margem em relação aos demais clubes - e entre eles mesmos na reta final -, neste ano não creio na repetição do fenômeno. Lamentavelmente, o equilíbrio desta temporada não é decorrente da subida de produção das equipes que correm por fora, mas sim do notável empobrecimento do nível de jogo dos favoritos.
Equipes mais niveladas
Se na última temporada a briga pelo título e pelas vagas para a Copa Libertadores ficou restrita aos clubes de maior tradição, este ano veremos equipes como Figueirense, Criciúma e Goiás postulando essas posições, com totais possibilidades de obtê-las. Continuo achando que Cruzeiro, Santos e São Paulo são as melhores equipes do Brasil e incluo nesse rol o encardido São Caetano. Mas a verdade é que, com tantas mudanças de técnico - Luxemburgo foi para o Santos e Leão pode ir para o Cruzeiro - e jogadores que podem se transferir de clube na metade da temporada, é arriscado fazer qualquer exercício de futurologia. Gustavo Nery, um dos destaques do líder São Paulo, não estará no clube no segundo semestre, sendo que ainda pipocam boatos sobre a transferência de Luís Fabiano para o futebol europeu, provavelmente para ser companheiro de Ronaldinho Gaúcho e Belletti no Barcelona. O que será do tricolor paulista sem seus principais jogadores? Ninguém sabe. O fato é que o campeonato está tão equilibrado que muitas das equipes que golearam nas primeiras rodadas foram goleadas logo em seguida - e ontem vimos o atual campeão da Série B fazer uma partida absolutamente equilibrada com o campeão da Série A, na casa do adversário.
Muitos na briga para não cair
Nas últimas temporadas vários clubes com títulos brasileiros na bagagem estiveram envolvidos na luta para escapar do rebaixamento. Palmeiras e Botafogo em 2002 e Bahia em 2003 não conseguiram evitar a degola, enquanto Grêmio, Fluminense e Vasco se livraram da desonra na reta final. Pois para 2004 não é difícil prever que muitos clubes de tradição freqüentarão a zona de rebaixamento - e, como caem quatro e os clubes médios estão arrumadinhos, é quase impossível que todos eles escapem. Os cariocas e suas eternas crises, o Grêmio, o Corinthians, o Atlético Mineiro, entre outros menos votados, devem abrir o olho agora se não quiserem sofrer as conseqüências na reta final. Acredito que pelo menos uma dúzia de clubes verá seus nomes associados ao famoso fantasma do rebaixamento.
Muitos dos detratores dos campeonatos por pontos corridos usam como argumento o que acontece nos campeonatos europeus, nos quais, via de regra, apenas duas ou três equipes lutam efetivamente pelo título. Não vejo nada de errado nisso, até porque as brigas pelas vagas para as copas continentais - a Liga dos Campeões e a Copa da Uefa - e para escapar do rebaixamento fazem com que todas as partidas valham muito. Ocorre, no entanto, que aqui no Brasil, país de futebol tão movediço e tão equilibrado, as chances de experimentarmos algo minimamente parecido com marasmo na tábua de classificação são mínimas. É possível que em longo prazo o sistema de pontos corridos acabe por reduzir a quantidade de papões no futebol brasileiro para uns quatro ou cinco clubes. Se isso acontecerá ou não, é algo que as futuras gerações saberão dizer.