Quando comecei a escrever esta coluna, os clubes cariocas ocupavam as últimas colocações na classificação do Campeonato Brasileiro. Se considerássemos a média dos quatro representantes, o Estado do Rio seria o de pior desempenho na competição. Nunca, na história do Brasileirão, os clubes do Rio haviam ficado tanto tempo sem vencer: três rodadas. Por trás de resultados tão ultrajantes, está um dos cânceres do futebol do Estado: o amadorismo. Do pipoqueiro ao flanelinha, do professor ao jornalista, da bailarina de cabaré ao presidente da República, estamos num mundo de profissionais. Quando falo em profissionais me refiro a pessoas que, como você e eu, vivem da remuneração que recebem em troca daquilo que fazem. Por incrível que pareça, há muita gente que acha que a função de dirigente esportivo não foi feita para ser exercida por profissionais, mas apenas por abnegados que trabalham ''por amor'' aos clubes.
Já escrevi sobre isso, mas o fato é que os clubes cariocas vivem uma situação paradoxal, que é a principal causa da lavada que vêm levando dos times dos outros Estados. Enquanto Fluminense e Botafogo - clubes que até buscaram se profissionalizar - tiveram dificuldades em encontrar parceiros da iniciativa privada, Vasco e Flamengo, que sentiam calafrios só de pensar em gestão profissional, conseguiram investidores. Conseguiram e perderam. Por vários motivos, mas especialmente pela absoluta falta de vontade política de seus folclóricos dirigentes em adotar o profissionalismo. Os parceiros que encontraram não eram os mais hábeis e sólidos, mas a escolha do parceiro é responsabilidade dos dirigentes, não é verdade? O mais incrível é que o Flamengo, que com Márcio Braga ensaia uma caminhada em direção ao profissionalismo, perdeu o principal patrocinador. Enquanto o Fluminense, que conseguiu um bom parceiro, teve uma recaída amadorística, explicitada nas declarações de cartolas que pregam nada menos do que o assassinato do chefe do departamento de arbitragens da CBF. Isso é ou não é amadorismo no Estado mais puro e patético?
Junte-se a tudo isso a interminável e conturbada gestão do Caixa d'Água no comando da federação e chegaremos ao resultado que está refletido na classificação do campeonato. Mas, pelo visto, os cartolas acham que tudo vai bem, já que apoiaram o Caixa para um novo mandato. Os dirigentes que querem ver preservados os privilégios monárquicos que têm em seus clubes espertamente falam em amor à camisa. Bradam que não é possível que um profissional comande um clube pelo qual não seja apaixonado. Dizem que fizeram muito mais pelo clube que o clube por eles. Escutei gente no Flamengo falando até em Zico, como exemplo dessa dedicação ''amadora''. Ora, Zico é exemplo de amor à camisa, sim, mas não usem o seu nome como exemplo de amadorismo, pois ele ficaria ofendido. Zico sempre foi profissional - e bem remunerado. Recebia para jogar no Flamengo, como é justo que recebam os que administram o futebol. Duvido que um bom profissional como ele deixaria de ter feito o que fez pelo clube, mesmo se fosse botafoguense de carteirinha.
Só que não basta receber salário. Eu adoraria ser centroavante do Fluminense. Jogaria de graça e até pagaria uns caraminguás para vestir a camisa 9 tricolor. Mas eu não serviria para o time. Além da remuneração, é preciso competência. E competência não exige paixão. O que não pode existir é esse amadorismo velhaco, amador na hora de rechaçar os ventos de modernidade, mas profissional na hora de receber salários e comissões sobre vendas de jogadores. Não agüento mais aquela conversa do dirigente que diz que colocou dinheiro do próprio bolso no clube. Isso é mentira! E se fosse verdade, estaria errado. Os clubes precisam sobreviver com seus próprios recursos - e para isso existem os profissionais.
O profissionalismo chegará um dia à administração dos clubes. O ciclo que se encerrou, com a saída de muitos dos investidores dos grandes clubes, foi apenas o primeiro capítulo. Um capítulo de desorganização, supervalorização de cifras e boicotes de dirigentes. Mas o rico futebol, com potencial inimaginável de receitas, não ficará muito tempo longe dos olhos de empresas que querem lucrar, de forma decente, com ele. Os clubes que aceitarem isso sairão vencedores. Os que se recusarem a expulsar os dirigentes de carreira e os pulhas que agem como donos dos clubes, desaparecerão ou viverão como tristes sombras do passado. Pois o amadorismo, e não o profissionalismo, é que está matando o futebol carioca. Em tempo: os cariocas ganharam uma! O Fluminense foi o autor da façanha. Pena que ela foi conseguida sobre o Vasco... E, ainda assim, com um gol contra.