Na grande maioria dos campeonatos estaduais Brasil afora, os fatos vêm comprovando o que escrevi aqui na semana passada: as grandes equipes estão na liderança dos torneios e devem decidir os títulos entre elas. A tradição dos estaduais é mesmo essa. Ano após ano, os candidatos a Davi giram animadamente suas fundas nas primeiras etapas dos certames, até que, na reta final, acabam abatidos pelo peso da espada dos Golias de plantão. É possível contar nos dedos as ocasiões em que um time pequeno fez valer a tradição bíblica e, tal como um Davi, superou as grandes equipes. Curiosamente, num dos campeonatos mais badalados do país - o Paulista - os Golias não estão tendo vida fácil.
O primeiro pequeno a tentar uma façanha foi o Americano, no sábado. Mas nem com a ajuda dos deuses da Federação Carioca, o Davi de Campos dos Goytacazes foi páreo para o Fluminense. Com Romário fazendo as pazes com Roger, com Ricardo Gomes, com os gols e com a torcida, o Tricolor dominou a partida e venceu com facilidade. O destaque da partida foi Roger, que deu uma verdadeira cátedra sobre a arte dos lançamentos de longa distância. Desde os tempos de Gérson, Rivelino e Delei que a torcida do Flu não via um jogador com tamanha precisão nos passes, cheios de efeito. Uma coisa bonita de se ver. A verdade é que se Roger tivesse participação mais constante nas partidas e não apresentasse o vício do santista Diego - o de caminhar muito com a bola presa aos pés -, já poderia até ter sido convocado para a Seleção. No duelo dos atacantes, vitória da experiência. Enquanto Romário mostrou talento e oportunismo nos gols que marcou, Marcelo foi substituído depois de perder muitas chances, uma delas quando tropeçou na bola.
Quando, na última coluna, afirmei que o Palmeiras teria de jogar tudo o que sabe para bater o Paulista, mais de um leitor reclamou. Segundo eles, eu estaria menosprezando o favoritismo do Verdão. Mas o que se viu no sábado foi um Paulista que, mesmo jogando na casa do adversário, não se acovardou. O time de Zetti abriu o marcador com um belíssimo gol de Canindé, cedeu o empate, mas saiu do Palestra Itália com um gosto de triunfo na boca. É verdade que o Palmeiras produziu as melhores chances e, se tivesse contado com o talento e o oportunismo de Vágner Love, é bem provável que o resultado fosse outro. Ainda não se sabe onde será disputado o jogo de volta. Se a partida for em campo neutro, repito meu comentário: o Palmeiras terá de jogar tudo o que sabe para bater o Paulista. Se o jogo for confirmado para Jundiaí, o time do Parque Antártica terá de jogar tudo o que sabe e um pouquinho mais. Apesar de tudo, na condição de Golias, o Palmeiras ainda é o favorito.
Em se tratando de Santos x São Caetano, o favoritismo do time praiano se prende mais a uma questão de elenco. Se o Santos é uma potência, ninguém pode negar ao Azulão a condição de um dos protagonistas do futebol brasileiro nos últimos tempos. Portanto, só mesmo pelo aspecto de tradição é que o time do ABC poderia ser colocado no papel de Davi. E o que se viu ontem na Vila foi um duelo de gigantes. De um lado, o Peixe, com a tradicional volúpia, muito talento, a confiança em alta mesmo quando em desvantagem no marcador. Do outro lado, o Azulão, que mesmo quando abre vantagem não perde de vista o pragmatismo, a aplicação tática, o trabalho coletivo. Dois estilos vencedores, complicadíssimos para qualquer adversário. Se pedirem para os técnicos brasileiros escolherem os times que eles não gostariam de enfrentar, os rivais de ontem certamente encabeçariam a lista. O empate em 3 x 3 não fez justiça ao maior volume de jogo do Santos, mas o fato é que ninguém merecia perder um jogão daqueles.
Jogão na Vila, jogo mixuruca no Maracanã. Com um homem a mais durante quase todo o jogo e com dois homens a mais na reta final da partida, em nenhum momento o Vasco lembrou aquele time organizado, dono da melhor campanha do campeonato. A sorte dos comandados de Geninho - que congestionou de volantes o meio-campo - foi que a estrela de Zé Romário se apagou assim que o tempo regulamentar terminou. O goleiro do Friburguense, que fez belíssimas defesas na partida, não chegou nem perto de defender um pênalti na série que decidiu a vaga. Melhor para Fábio, que deteve uma cobrança e acabou sendo o herói da partida. Resultado: Fluminense x Vasco na final da Taça Rio, com o vencedor fazendo a finalíssima com o Flamengo. Emoção garantida na reta final do Estadual do Rio, onde os Golias venceram. Será que em São Paulo ocorrerá o mesmo?