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A loucura de Édson

Dedicado a Gérson e Tostão

Pouco antes da Copa de 2002, o documentarista João Salles enviou aos meus cuidados uma fita de vídeo com um especial sobre a conquista do tricampeonato no México. Era um programa muito interessante, mas em nada diferente do padrão de produções dessa natureza. Nenhum fato desconhecido, nenhuma revelação bombástica. Por que ele me enviou isso? - pensava eu quando um entrevistador pediu ao Gérson para escalar a Seleção de 70. Uma pergunta absolutamente convencional, diga-se. A resposta do Canhotinha de Ouro, entretanto, proporcionou um momento de grande emoção, que recordarei para sempre. Gérson foi listando os jogadores: ''Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Clodoaldo e Everaldo...''. Quando mencionou o nome de Everaldo, tragicamente falecido depois da conquista, a voz do Canhota tornou-se embargada e ele chorou. Um choro sentido, copioso. Cheguei a duvidar que ele pudesse continuar a escalação.

O genial maestro, o cérebro maior do maior esquadrão da história do futebol, reuniu forças e prosseguiu, com lágrimas escorrendo pelo rosto e a voz sufocada e fina, como numa prece: ''... Eu, Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino.'' Com os lábios trêmulos, Gérson balbuciou ainda que alguns integrantes daquele grupo já não estão entre nós e que ele sentia imenso orgulho de ter participado daquele time inesquecível. Foi impossível não chorar também. Até hoje, quando revejo a fita, não consigo evitar as lágrimas. Mencionei essa passagem porque Pelé, um dos companheiros que Gérson mencionou com tanto sentimento, esqueceu de citar seus principais companheiros na lista dos 120 maiores jogadores vivos do planeta, que ele preparou junto com a Fifa. Entre todos os que ajudaram Pelé em suas conquistas mundiais, apenas dois laterais - Carlos Alberto e Djalma Santos - foram inicialmente citados. Graças à reação indignada da opinião pública, a lista foi expandida e incluiu outros dois brasileiros: Rivelino e Nilton Santos. Eu poderia interromper o texto por aqui, já que qualquer lista - de 11 jogadores, que seja - que não inclua Nilton Santos é, definitivamente, uma lista imbecil. Mas sigo em frente, porque considero imperioso fazer um contraponto entre o carinho de Gérson por seus ex-companheiros e o desprezo de Pelé por aqueles que o ajudaram a ser o que sempre será, mesmo com as sandices perpetradas fora dos gramados: o maior jogador da história.

O que Pelé pareceu demonstrar com isso? Procurei insistentemente por respostas que aliviassem o pecado do Atleta do Século, mas só cheguei a uma explicação: ele tencionou dizer que mesmo jogando pelo Íbis, ainda assim seria o maior de todos. Isso não é verdade. E quem viu Michael Jordan, o Pelé do basquete, perdendo tudo quando defendeu o limitado time do Washington Wizards sabe exatamente do que eu estou falando. O poder não existe se não é compartilhado. Não há rei sem exércitos ou súditos. Ninguém é uma ilha. Nem mesmo Pelé. O rei não seria rei sem as tabelas com Coutinho. Nem teria marcado seu gol na final contra a Itália, em 70, se Rivelino não tivesse arriscado quebrar a perna para alçar sobre a área a bola que ele cabeceou para as redes. Não teríamos passado pela Inglaterra se Tostão não tivesse produzido a mais linda jogada do campeonato e, instintivamente, encontrado Pelé na área adversária - e se Jairzinho não tivesse finalizado a jogada em gol. Em 62, nosso segundo título mundial só foi possível porque o time soube suprir a ausência do monarca contundido. Em 58, sem o apoio de Nilton Santos - nos ombros de quem chorou após o título -, Pelé talvez não tivesse saído da reserva. Sem o tricampeonato, sem as glórias do Santos, o que seria Pelé? O rei desprezou isso na hora de elaborar sua lista blasfema.

Toda vez que é envolvido num escândalo, Pelé garante que agiu de boa-fé, mas que usaram seu nome de forma indevida. A culpa é sempre de um sócio ardiloso, de um espertalhão, de um aproveitador. A culpada da vez é a Fifa. Ora, se Pelé não concorda com a lista, que não a tivesse endossado. Ele não precisa da promoção nem do dinheiro que uma empreitada dessas possa gerar. Com mais de 60 anos de idade, já está na hora de ele saber escolher com quem se envolve. Está mais do que na hora de Édson Arantes do Nascimento entender que a legenda Pelé não pertence apenas a ele. Que Pelé é um patrimônio do Brasil, um sinônimo da nossa grandeza, do que temos de melhor. E que Pelé não pode mais ser vilipendiado pelas loucuras desse tal rei Édson, que diz ser seu bastante procurador. Gérson e Tostão são glórias eternas do futebol mundial. Eles não precisam ter seus nomes naquela lista para provar seu valor. Mas o futebol, a decência e a justiça precisam desesperadamente dos nomes deles naquela lista.


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[08/MAR/2004]


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