Mais uma vez o final de semana ofereceu grandes clássicos aos torcedores das duas maiores cidades do Brasil. No Rio, Flamengo e Vasco disputaram mais uma edição do tradicional Clássico dos Milhões - desta vez com um público que esteve plenamente à altura da alcunha do espetáculo. A razão de outra vez vermos o Maracanã coalhado de torcedores e o Cariocão com média de público superior à do Paulistão já foi comentada aqui, mas vale a pena repetir, para que os dirigentes da Federação Paulista aprendam a lição e, no próximo ano, possam organizar um torneio mais atraente. O Cariocão tem menos clubes, menos jogos, um regulamento simples e ingressos mais baratos - tudo ao contrário do Paulistão. O Fla x Vasco de ontem e o Flu x Americano de anteontem, por exemplo, valiam vaga na final da Taça Guanabara. Por se tratarem de jogos decisivos num campeonato curto, o torcedor compareceu: 37 mil pessoas no sábado e 65 mil ontem.
Em São Paulo, a grande atração da rodada foi São Paulo x Corinthians, acompanhado por 21 mil pessoas - menos do que Fluminense x Americano, jogo que sequer é um clássico carioca. De certa maneira, também é possível dizer que São Paulo x Corinthians é o Clássico dos Milhões da capital paulista. Se não pela média de público, que, creio, deve ser maior em Corinthians x Palmeiras, ao menos pelo poder aquisitivo das duas equipes. Com a crise administrativa e financeira que o Palmeiras vem atravessando nos últimos tempos e as limitações orçamentárias do Santos, os adversários de ontem são os clubes de maior investimento no futebol do Estado. Não que a situação esteja tranqüila para alvinegros e tricolores, mas é inegável que há muitas temporadas que as mais importantes contratações do futebol paulista são realizadas pela dupla. Na temporada atual, os dois clubes apostaram mais na quantidade do que na qualidade, mas, ainda assim, foram os que apresentaram mais novidades entre os grandes de São Paulo.
Dentro de campo, os dois clássicos mostraram como, nesses tempos em que os melhores jogadores brasileiros são negociados cada vez mais cedo para o exterior, um craque solitário pode fazer a diferença. Nesse quesito, a vantagem estava nas mãos de Flamengo e São Paulo. O Flamengo tem o maestro Felipe, e o São Paulo conta com o excepcional artilheiro Luís Fabiano. No Maracanã, a exemplo do que o Fluminense havia feito na véspera contra o Americano, o Flamengo resolveu o jogo no primeiro tempo. Com nova atuação de gala de Felipe, o rubro-negro dominou a partida. O jogador que poderia ter desequilibrado as coisas em favor do Vasco - Marcelinho - voltava de contusão e pouco apareceu. Para não dizer que o Pé-de-Anjo passou em branco, recordo que ele participou das duas jogadas mais perigosas do Vasco na etapa inicial: uma cobrança de falta da quina da grande área e uma cabeçada na trave, aos 45 minutos, seu último lance na partida. Na segunda etapa, sem Marcelinho, coube a Morais a organização do meio-campo cruzmaltino. Só que Morais, bem... Moraes não é Marcelinho. E muito menos um Felipe.
Sem talento no setor central, os atacantes vascaínos permaneceram isolados. Valdir Bigode até tentou alguma coisa, mas parecia sem ritmo. O jogo arrastado do segundo tempo, se não agradou aos torcedores, interessou ao Flamengo que, despreocupado, foi tocando a bola e contando os minutos. Felipe continuou driblando como quis, mas não com a efetividade do primeiro tempo. A decisão da Taça Guanabara, em pleno sábado de carnaval, promete ser eletrizante. O Fluminense, que ameaça levar a campo pela primeira vez seus quatro ases (Romário, Ramon, Edmundo e Roger), coadjuvados pelos talentosos Rodolfo e Leonardo Moura, poderia até ser considerado favorito. Mas quem viu o Fla x Flu da fase de classificação e acompanhou as últimas atuações de Felipe sabe que a nova máquina precisará de todas as peças azeitadas e em perfeito funcionamento para superar o arqui-rival.
Também graças ao último e espetacular Fla x Flu, a rivalidade dos clubes está em alta e a final de sábado deve, mesmo sob regência de Momo, quebrar novos recordes de público. O sábado de carnaval não é a data ideal para a realização de um jogo tão importante, mas não creio que os festejos evitarão um clássico de casa cheia. Vale lembrar que a estréia de Rivelino no tricolor, contra o Corinthians, em 1975, lotou o Maracanã em pleno sábado de folia. Para o Flu, o jogo terá sabor de revanche. Para o Fla, o triunfo será como uma doce vingança do Cariocão de 1995, quando um time de operários do tricolor bateu um supertime rubro-negro. Os operários - exceto o grande engenheiro Felipe - agora estão no Flamengo, enquanto os grandes nomes pertencem ao Fluminense. Façam suas apostas.