O campeonato estadual de São Paulo, ao menos na teoria, tinha tudo para ser melhor do que o do Rio de Janeiro. Se levarmos em conta os resultados dos campeonatos brasileiros dos últimos anos, constataremos que os grandes clubes paulistas, na média, tiveram desempenho sempre melhor do que os cariocas. Três equipes de São Paulo - São Paulo, São Caetano e Santos - disputam a presente edição da Libertadores, contra nenhuma do Rio. Os clubes do interior de São Paulo - Guarani, Ponte Preta, Mogi e Azulão, entre outros - são melhores que seus primos do Estado do Rio: Americano, Friburguense e Cabofriense. E até as portuguesas de São Paulo são mais poderosas do que a xará carioca. Por que será, então, que o Cariocão vem apresentando uma média de público tão melhor do que o Paulistão? Para encontrarmos a resposta, basta uma espiada nos regulamentos das competições.
O regulamento do Cariocão 2004 é facílimo de explicar. Duas chaves, dois turnos. No primeiro turno os clubes se enfrentam dentro das próprias chaves; no segundo, jogam contra os adversários da outra chave. Semifinais de cada turno: primeiro do A contra o segundo do B e primeiro do B contra o segundo do A. Os vencedores decidem os turnos, batizados de Taça Guanabara e Taça Rio. Se alguém ganhar os dois turnos será campeão, diretamente. Se cada turno tiver um vencedor, haverá a finalíssima, disputada em dois jogos. É um regulamento simples e cheio de emoção. Os dois clássicos do primeiro turno - Fla x Flu e Botafogo x Vasco - foram fundamentais para a definição dos times que avançarão para as semifinais, bem como os cruzamentos dessa fase. Como são apenas cinco jogos para apontar os classificados da Taça Guanabara, cada partida vale vinte por cento do esforço total. Ou seja: vale muito. Tenho certeza de que veremos excelentes públicos nos seis clássicos dos dois turnos, nas quatro semifinais, nas finais das duas taças e, caso necessário, na grande final. Só esses jogos, num campeonato curto, já garantirão uma ótima média de público.
Mantendo a tradição de regulamentos bizarros, o Paulistão tem 21 clubes, divididos em duas chaves: uma com dez, outra com 11 participantes. Os times jogam dentro do grupo, em turno único. Classificam-se os quatro melhores de cada chave. Os mandantes nas quartas-de-final serão definidos de acordo com as posições finais na primeira fase, desconsiderando a melhor campanha no geral, até porque os times de um dos grupos farão uma partida a mais. Assim, os times que terminarem em primeiro ou segundo, independente da soma de pontos, jogarão em casa contra os times que ficarem nas terceiras e quartas colocações. O cruzamento das semifinais permite um confronto entre os primeiros colocados da primeira fase, o que tornaria impossível uma final de campeonato entre os campeões dos grupos. O mando de campo nesta fase será sorteado. O critério técnico também não terá validade para a escolha de quem decidirá a competição em seu estádio, já que o mando das finais é da Federação. Achou complicado? Eu também. Complicadíssimo! Agora imagine o pobre do torcedor que não é cronista esportivo ou leitor de jornal qualificado.
O resultado dos dois regulamentos, um muito bom e o outro patético, pode ser notado não apenas na freqüência de público, mas na própria atitude dos times. Enquanto os cariocas vêm buscando constantemente o gol e produzindo espetáculos e placares surpreendentes - como o 4 x 3 que o Flamengo aplicou no Fluminense para, na rodada seguinte, cair pelo mesmo placar e mais ou menos do mesmo jeito diante do América -, os times de São Paulo parecem ainda um tanto sonolentos. No clássico carioca da rodada, Botafogo e Vasco provaram que, como a dupla Fla-Flu, também conseguem encher o Maracanã e produzir bons espetáculos. Pena que os times desperdiçaram muitas oportunidades de gol e o placar ficou apenas no 1 x 1.
Para concluir, um esclarecimento importante: quando digo que não concordo com as seguidas críticas que alguns cronistas vêm fazendo ao Campeonato Carioca e ao esforço dos clubes do Rio para recuperar a grandeza de outrora, não pretendo exaltar a administração do Caixa D'Água. Muito pelo contrário: considero que, se os clubes do Rio de Janeiro atravessaram momentos desesperadores na última década, isso pode ser creditado, em grande escala, à péssima gestão do futebol do Estado. Só que deslustrar o charmoso Cariocão - um patrimônio da população - e os grandes clubes que o disputam só serve para fortalecer ainda mais o cartola. Quando os clubes forem fortes outra vez, quando o campeonato recuperar todo o brilho, não faltará oposição à atual administração. Enquanto o futebol carioca continuar por baixo, os clubes não terão força para mudar nada, assim como os bons administradores não se entusiasmarão a lutar para dirigir um negócio tão deficitário e desvalorizado.